Unidade e cisão na política proletária: uma carta de Engels

Por Friedrich Engels, via marxists.org, traduzido por Igor A. Torres Riberio

Excerto de carta para August Bebel em Leipzig

Londres, 28 de outubro de 1882

[…]

Eu li o segundo artigo [de Vollmar] [1] um tanto apressadamente, ao mesmo tempo em que duas ou três pessoas conversavam ao fundo. Do contrário, teria detectado a influência francesa pela maneira como ele representa a Revolução Francesa para si mesmo e, com isso, o dedo de Vollmar no artigo também, sem dúvida. Você acertou na mosca. Trata-se da realização final almejada pela frase sobre “uma única massa reacionária”. [2] “Aqui, todos os partidos oficiais unidos em um só amontoado; ali, na outra coluna, todos os socialistas – então a grande batalha decisiva; e a vitória em todas as linhas em um só golpe.” Na vida real as coisas não são tão simples. Na vida real, como você bem definiu, a revolução começou ao contrário, através da grande maioria da população e também dos partidos oficiais se reunindo contra o governo, que assim foi isolado e derrubado; e foi somente depois daqueles dos partidos oficiais, cuja existência ainda é possível, terem mutualmente e de forma bem sucedida cumprido a destruição uns dos outros, que a grande divisão a que se refere Vollmar se realiza, e com ela a perspectiva do nosso governo. Se, como Vollmar, nós quiséssemos começar desde a revolução com seu ato final, as coisas estariam terrivelmente ruins para nós. [3]

[…]

Na França, a tão esperada divisão aconteceu. A associação original de Guesde e Lafargue com Malon e Brousse era sem dúvida inevitável quando o partido foi fundado, mas Marx e eu nunca tivemos nenhuma ilusão de que fosse duradoura. O problema em questão é puramente de princípios: a luta deve ser conduzida como uma luta de classe do proletariado contra a burguesia, ou deve ser permitido, no bom estilo oportunista (ou, como é chamada na tradução socialista: possibilista) que o caráter de classe do movimento, junto com seu programa, seja abandonado onde quer que haja a chance de ganhar mais votos, mais “seguidores”, por esses meios? Malon e Brousse, ao se declararem a favor desta última alternativa, sacrificaram o caráter de classe proletário do movimento e tornaram a separação inevitável. Melhor assim. O desenvolvimento do proletariado procede em todos os lugares em meio às lutas internas, e a França, que agora está formando um partido operário pela primeira vez, não é exceção. Na Alemanha, nós ultrapassamos a primeira fase da luta interna (com os lassalleanos); outras fases ainda estão à nossa frente.

A unificação é boa enquanto durar, mas há coisas mais importantes que a unidade. E se você é como Marx e eu, que lutamos contra os supostos socialistas mais do que contra qualquer outra pessoa ao longo de nossas vidas (porque nós apenas tomamos a burguesia como uma classe, e quase nunca nos envolvemos em lutas individuais com a burguesia), nesse caso não se pode lamentar muito que a luta inevitável tenha estourado.

Eu espero que isto chegue até você antes que eles o prendam. Saudações calorosas de Marx e Tussy. Marx está se recuperando rapidamente e se sua pleurisia não voltar ele estará mais forte no próximo outono do que ele esteve por anos. Se você ver Liebknecht em Käfigturm [4] (como dizem em Berna), dê a ele os melhores cumprimentos de todos nós.

[Na foto, da esquerda para a direita: Ferdinand Simon, Friederike Simon-Bebel, Clara Zetkin, Friedrich Engels, Julie Bebel, August Bebel, Ernst Schattner, Regina Bernstein e Eduard Bernstein.]

Notas:

[1] Georg Vollmar foi um social-democrata reformista combatido duramente, mais tarde, por Rosa Luxemburgo. Vide A outra Rosa.

[2] Referência aos dizeres de Lassalle, criticada por Marx em sua Crítica do Programa de Gotha:

“4. «A libertação do trabalho tem que ser obra da classe operária, em face da qual todas as outras classes são uma só massa reacionária.»

A primeira estrofe é tirada das palavras introdutórias dos Estatutos internacionais, mas «melhorada». Diz-se lá: «A libertação da classe operária tem que ser o feito dos próprios operários»; aqui, pelo contrário, «a classe operária» tem que libertar — o quê? «O trabalho.» Compreenda quem puder.

Em compensação, a antístrofe é, pelo contrário, uma citação de Lassalle, da mais pura água: «em face da qual (da classe operária) todas as outras classes formam uma só massa reacionária».

No Manifesto Comunista diz-se:

«De todas as classes que hoje em dia defrontam a burguesia, só o proletariado é uma classe realmente revolucionária. As restantes classes desmoronam-se e soçobram com a grande indústria; o proletariado é dela o produto mais próprio.»

A burguesia é aqui apreendida como classe revolucionária — como portadora da grande indústria — face aos feudais e estados médios [Mittelstände] que querem manter todas as posições sociais que são obra de modos de produção antiquados. Não formam, portanto, juntamente com a burguesia, uma só massa reacionária.

Por outro lado, o proletariado é revolucionário face à burguesia, porque, crescido ele próprio do solo da grande indústria, se esforça por despojar a produção do carácter capitalista que a burguesia procura perpetuar. Mas o Manifesto acrescenta: que os «estados médios [Mittelstände]… (se tornam) revolucionários… em vista da sua passagem iminente para o proletariado».

Deste ponto de vista, é, portanto, de novo um contra-senso que elas «juntamente com a burguesia» e, sobretudo, com os feudais, face à classe operária, «formem uma só massa reaccionária».

Recordou-se, aquando das últimas eleições, aos artesãos, aos pequenos industriais, etc, e aos camponeses: face a nós, formais com burgueses e feudais uma só massa reaccionária?

Lassalle sabia de cor o Manifesto Comunista, tal como os seus crentes [sabem] os sagrados escritos da autoria dele. Se, portanto, ele o falsificou tão grosseiramente, isso só aconteceu para embelezar a sua aliança com os adversários absolutistas e feudais contra a burguesia.”

[3] A esse respeito, vide Lênin: “

Imaginar que uma revolução social é concebível sem as revoltas das pequenas nações nas colônias e na Europa, sem as explosões revolucionárias de um setor da pequena-burguesia com todos seus preconceitos, sem um movimento do proletariado politicamente não-consciente e massas semiproletárias contra a opressão de seus latifundiários, da Igreja, e da Monarquia, contra a opressão nacional, etc. – imaginar isso é condenar a revolução social. Então, um exército se enfileira em um local e diz “Nós apoiamos o socialismo”, e outro, em outro local qualquer, diz “Apoiamos o Imperialismo”, e isso será uma revolução social! Apenas aqueles que têm uma visão tão ridiculamente pedante podem difamar a rebelião irlandesa chamando-a de “putsch”. Quem espera uma revolução social “pura” nunca vai viver para vê-la. Tal pessoa fala tanto de revolução sem entender o que é uma revolução.

[4] Literalmente “torre jaula”; aqui prisão.

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1 comentário em “Unidade e cisão na política proletária: uma carta de Engels”

  1. Para a Europa, o século XIX foi um grande palco para importantes agitações sociais, políticas e econômicas que marcariam a sua trajetória durante várias décadas. Entre outros fatores que explicam essa movimentação, podemos destacar rapidamente o papel exercido pela Revolução Industrial, formadora de uma nova lógica econômica, e a Revolução Francesa, experiência disseminadora de novos ideais que abalavam a ordem do Antigo Regime.

    Impregnada por esses dois acontecimentos, vemos que a Europa do século XIX foi marcada pela agitação de operários que, em diversos centros urbanos, discutiam as suas demandas de forma intensa. Já nessa época, os ingleses marcaram presença com a agitação promovida pelo movimento cartista, onde a “Carta do Povo” revelava uma tentativa de pensar e definir as demandas que abraçavam os milhares de trabalhadores das fábricas e lojas da Europa.

    Em pouco tempo, novos ideais surgiam como uma resposta a toda uma massa responsável pela produção de riqueza na era industrial. Vivenciando bem essa época, Karl Marx e Friedrich Engels atuavam como importantes pensadores sobre as contradições que marcavam a sociedade burguesa. Paralelamente, vários trabalhadores aglomeravam-se em pequenas sociedades, interessadas na luta contra a miséria e na desigualdade de sua própria classe.

    Rodeados por tantas manifestações de transformação, Marx e Engels realizaram a produção do chamado “Manifesto Comunista”. Encomendado pela chamada “Liga dos Justos” – uma sociedade de operários alemães alocados em Londres, o documento dizia que os operários deveriam se organizar para que a classe trabalhadora realizasse uma mudança de grande profundidade. O que se propunha era uma grande comunhão em que os trabalhadores se pusessem a serviço de um grande objetivo comum.

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