Por uma psicologia desde América Latina e para América Latina

Por Pedro Henrique Antunes da Costa e Kíssila Teixeira Mendes

Apresentação do livro “¿Nuestra América, nuestra psicología? Psicologia, crítica(s) e caminhos possíveis“, publicado pela LavraPalavra Editorial, cuja atividade de lançamento online ocorrerá no próximo dia 18/05, às 19 horas, em nosso Facebook.

Nós, latino-americanos

Somos todos irmãos

mas não porque tenhamos

a mesma mãe e o mesmo pai:

temos é o mesmo parceiro

que nos trai. Somos todos irmãos

não porque dividamos

o mesmo teto e a mesma mesa:

divisamos a mesma espada

sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos

não porque tenhamos

o mesmo braço, o mesmo sobrenome:

temos um mesmo trajeto

de sanha e fome. Somos todos irmãos

não porque seja o mesmo sangue

que no corpo levamos:

o que é o mesmo é o modo

como o derramamos.

(Ferreira Gullar, no livro Barulhos, de 1989)

Em meio a tanta desgraça, os “Por quê?” se espraiam; uns inocentes, de espanto genuíno – mesmo que tardio -, outros tantos já repetitivos, cansados, quiçá protocolares. Alguns nos movimentam; outros paralisam. Nisso, por que um livro de psicologia num momento em que a vida parece não ter valor? Ou melhor dizendo, a vida de uns e umas parecem não ter valor. Ora, se a vida humana parece não ter valor, por coerência lógica também não terá a psicologia. Por que lê-lo num contexto em que tudo que não diga respeito à pandemia, à sobrevivência ou à solidariedade com aqueles(as) que padecem – ou resistem – parece não ter sentido? Teremos nessas linhas ensinamentos sobre como lidar com as perdas? Sobre como podemos ser mais resilientes e continuarmos funcionando? Como devemos nos adaptar ao dito novo normal?

Infelizmente, nas linhas que se seguem nenhuma destas perguntas serão respondidas. Num mar de coaches, mensagens motivacionais, positividade e pílulas de felicidade (tudo isso muito bem engendrado na e pela psicologia), escolhemos o caminho mais difícil das respostas complexas, inconclusas, questionadoras. Para piorar, o foco aqui não diz respeito às contribuições da psicologia no contexto da pandemia especificamente, por mais que, ao ser sobre a psicologia em nossa realidade, também o diga. Mas por quê? Primeiramente, porque, em consonância a Ignacio Martín-Baró (2013, p. 571), importante psicólogo salvadorenho e que fundamenta muitas das reflexões da presente obra, “a psicologia não conta e nem pode fingir contribuir com soluções adequadas aos graves problemas estruturais, grupais e pessoais que afligem as maiorias”. A despeito do que se propaga, da aparência fenomênica, a psicologia tem pouco a contribuir em termos da necessária transformação de nossa realidade; pelo contrário, sua relevância à ordem está, justamente, na funcionalidade adaptativa e ajustadora que cumpre historicamente. Constatar, aliás, que a relevância da psicologia se intensifica com a deterioração das condições de vida, isto é, que quanto pior a realidade, mais útil e necessária se faz a psicologia à manutenção do estado das coisas, deveria nos alertar sobre a própria psicologia e a sociabilidade que a produz e dela necessita – ao mesmo tempo que não nega as suas contradições internas, apontando para a importância de se disputá-la.

Assim, a apreensão das possíveis contribuições da psicologia, mesmo que comedidas em face do desafio de se viver – e, mais, viver humanamente -, implicam a análise histórico-concreta de sua existência e desenvolvimento, sobretudo na América Latina (ou Abya Yala, conforme designação do povo Kuna, significando “Terra madura”, “Terra viva” ou “Terra em florescimento”). Por mais que o presente contenha o passado, se debruçar sobre o que a psicologia tem sido em Nuestra América, nos permite entender o que ela não tem sido e, mais, o que ela pode e deve ser. Por sua vez, tal movimento significa analisar o que a própria Latinoamérica tem sido, o que não tem sido e o que pode e deve ser, e como isso se manifesta na e pela psicologia. Nem a América, nem a psicologia têm sido nossas, apesar de feitas por nós. Nisso, é possível apreender que as armas que material e simbolicamente perfuram e abatem nossos corpos e mentes – com os vírus e demais agentes etiológicos sendo apenas algumas delas – há muito se dissipam pelo ar, em nossos solos e nas mentes, se desenvolvendo e sofisticando por meio de novas cepas e mutações a nos fazer sangrar das mais variadas formas. Nos é possibilitado, assim, evitar os erros de outrora, auxiliando a quem historicamente respira luta, num momento em que falta o ar; segurar aqueles(as) que caem e ajudar a erguer um povo que, apesar dos abatimentos, se levantou, se levanta e se levantará.

No presente livro, reunimos produções da psicologia, a partir de perspectivas críticas, em suas pluralidades, que auxiliam a pensar e a transformar a realidade latino-americana. Não que tal transformação advirá pela psicologia, mas, ao mesmo tempo, como a psicologia pode contribuir para ela. Almejamos propiciar um espaço de problematização acerca do papel da psicologia em Nuestra América, ressaltando a consubstanciação do seu desenvolvimento com o da região e, ao mesmo tempo, sinalizando possibilidades contributivas. São abarcados trabalhos de revisão, de natureza ensaística, resultantes de estudos e pesquisas originais, de cunho interdisciplinar, que versem sobre as interfaces entre a psicologia, como ciência e profissão, e contextos que conformam a América Latina.

Entendemos que o desenvolvimento da psicologia latino-americana, no que diz respeito às suas especificidades, encontra-se circunscrito às formações sociais particulares da região, e, por isso, é produto e produtor delas. Nesse sentido, é necessário considerar tais especificidades nas análises que abordam a psicologia nos contextos nos quais ela se constitui e que são constituídos por ela.

Como uma disciplina particular do conhecimento, cuja separação da Filosofia e consequente autonomização se dá no contexto europeu, na segunda metade do século XX, a psicologia manifesta tal concretude histórica nas suas concepções hegemônicas de ser humano, de mundo e sociedade, bem como no conjunto de suas práticas. Nisso, historicamente, acabou por incorrer prioritariamente em interpretações individualizantes, psicologizantes, a-históricas e apolíticas. A isso, o já mencionado Ignacio Martín-Baró denominou de “miséria” ou “escravidão” da Psicologia latino-americana, tendo “suas raízes em uma história de dependência colonial” (MARTÍN-BARÓ, 2011, p. 184), mesmo após o fim da colonização formal na região, já sob o jugo imperialista.

Numa relação dialética, temos que a psicologia latino-americana, no plano hegemônico, expressou o próprio caráter subordinado e dependente da região, ao mesmo tempo que contribuiu para ele, sendo sua continuidade/extensão. Isso se deu desde as suas formulações teóricas, arsenal categorial-analítico e explicações de nossa realidade, até a prática psicológica (o conjunto de técnicas, procedimentos e suas funções sociais); em suma, a práxis. No contexto latino-americano, seu desenvolvimento expressou tais perspectivas, gerando, em contrapartida, inúmeros movimentos de crítica, que ganharam corpo e relevo nas décadas de 1960, 70 e 80, questionando sua descontextualização e contribuição à manutenção de uma condição de subordinação aos países do centro da dinâmica capitalista e, internamente, à dominação de classe, numa amálgama exploratório-opressiva.

Nesse ínterim, faz-se necessário compreender os movimentos críticos e de contraposição a essa hegemonia conformadora da ordem e como contribuíram para repensar a psicologia, assim como a própria realidade latino-americana, orientando-se para o conhecimento e a superação dos seus múltiplos grilhões objetivos e subjetivos, teóricos e práticos. Apesar de sua relevância, esse movimento carece não apenas de continuidade, mas de permanente reflexão – e crítica – acerca de seus rumos, seus impactos, consequências concretas e vicissitudes. Tomando o movimento do real como contraditório, cabe a nós analisarmos e apreendermos não só o desenvolvimento da psicologia que gerou suas contradições internas, como a psicologia crítica (ou as críticas à/na/da psicologia), mas como essa última, que nasce como negação da psicologia tradicional, também tem se produzido em nossa realidade, não alheia às suas próprias contradições. No presente momento de intensificação da crise estrutural e sistêmica do capital, que expressam o caráter destrutivo do “progresso” capitalista, cuja condição barbárica se manifesta de maneira mais extremada na periferia, mais do que nunca é necessária a crítica da crítica, de modo que esta não se torne mero chavão e que a psicologia crítica não se configure como mais uma psicologia, entre as outras.

E tal crítica será, a nosso ver, tão mais válida quanto mais enraizada em nossos solos, oriundas dos chãos histórico-concretos de Nuestra América, num movimento da e para a realidade. Uma realidade de veias abertas que ainda jorram, o que significa que ainda se encontram abertas, mas também que o sangue continua a pulsar nelas. Enquanto escrevemos estas linhas, Jair Bolsonaro continua sentado na cadeira da Presidência da República do Brasil, sobre corpos de mais de 600 mil pessoas, vítimas da gestão genocida da pandemia da COVID-19; em El Salvador, Nayib Bukele segue sua marcha autocrática de tentativa de fechamento do regime; no Equador, o banqueiro Guillermo Lasso foi eleito, após um processo eivado de decisões espúrias da justiça contra líderes de movimentos de esquerda, dando continuidade à gestão neoliberal de Lenín Moreno; perspectivas e grupos conservadores, de extrema direita se espraiam pelo continente – e pelo mundo. Por outro lado, a Colômbia ferve em manifestações, ao mesmo tempo que são violentamente reprimidas e massacradas pelo governo abjeto do direitista e capacho dos Estados Unidos, Iván Duque (com mais de 3.000 militantes presos); na Bolívia, após o golpe que destituiu Evo Morales da presidência, Luis Arce, do mesmo partido – Movimento ao Socialismo (MAS) -, é eleito em outubro de 2020; no fim de 2021, tivemos a eleição de Xiomara Castro em Honduras, sendo a primeira mulher presidenta da história do país; Cuba se mantém firme, mesmo com todas as dificuldades oriundas do embargo, sendo, inclusive, exemplo na gestão da pandemia e com sua solidariedade geopolítica, exportando saúde enquanto países “democráticos” exportam guerra e destruição. Poderíamos falar das manifestações chilenas de 2019-2020 que se desdobraram nas eleições para a Constituinte e da eleição recente de Gabriel Boric contra a extrema-direita, do renascimento mariateguiano enquanto força política no Peru expresso na plataforma de Pedro Castillo – cujo início de governo se desenrola envolto em muitas inflexões e contradições -, das resistências permanentes de povos originários por toda a região, dentre outros exemplos. Porém, acreditamos já ter sido suficiente o esforço de demonstrar que a crítica da psicologia latino-americana deve se nutrir dos pés e mãos que tocam nossos solos e os assentam, sendo derivada da crítica da sociabilidade capitalista e das particularidades dos países de Nuestra América.

Como alertou José Martí (2005, p. 31, tradução nossa), na obra que inspira o título e conteúdo de nosso livro: “Estes tempos não são para se deitar com a touca na cabeça, e sim com as armas no travesseiro, como os varões de Juan de Castellanos: as armas do discernimento, que vencem as outras”1. Mesmo que as trincheiras de pedra devam ser sucumbidas por outras pedras igualmente pedras, estas não eliminam a relevância das ideias como armas e suas trincheiras. Não se trata, portanto, de um movimento endógeno, autossuficiente, dentro da psicologia, mas um processo que vem de fora para dentro, se alojando na psicologia, transformando-a e se utilizando dela como arma da crítica.

Ademais, não se pretende aqui apregoar uma psicologia latino-americana como uma entidade, algo em si ou produção monolítica, essencializada. Muito menos sustentamos que, sendo latino-americana (ou se considerando como tal), será necessariamente diferente ou superior que a de outros contextos, incorrendo em particularismos e relativismos histórico-culturais. Recorremos às advertências de María Milagros López (1985), psicóloga porto-riquenha, e o que veio a caracterizar jocosamente de psicologia do coquí (psicología del coquí2). Para essa psicologia, a solução dos problemas adviria da negação de tudo que vem de fora, apenas pelo fato de ser de fora (em especial da Europa e dos Estados Unidos), e da aceitação do que vem de dentro, por ser de dentro – no caso dela, de Porto Rico -, incorrendo em particularismos e relativismos histórico-culturais e numa essencialização dos sujeitos e suas realidades, desconsiderando suas condições concretas de existência, bem como quais projetos políticos e sociais a psicologia se filia e se orienta: “A psicologia do coquí é para mim um obstáculo no desenvolvimento de uma responsabilidade social alternativa, porque desfoca o problema da responsabilidade social que há de se assumir e transforma o problema em um simples daqui e de lá” (LÓPEZ, 1985, p. 75).

Se “as doutrinas não saíram dos livros para a realidade, mas da realidade para os livros” (LUKÁCS, 2020, p. 80), buscamos, então, projetar nos capítulos que se seguem, atravessados pela pluralidade que constitui a psicologia, as veias latino-americanas que pulsam, de modo a fazer pulsar a psicologia. Mais, buscamos no presente livro a produção de um encontro; um resgate histórico – de nossa história e da história da psicologia crítica latino-americana -, mas que não nos prenda ao passado, servindo à análise e transformação do presente em direção à construção do futuro: desde Nuestra América, uma nova psicologia para uma nova América, que seja realmente Nuestra. Em suma, um projeto de psicologia contra hegemônico, que parta e se volte ao atendimento das necessidades das maiorias populares latino-americanas, da classe trabalhadora, do conjunto dos explorados e oprimidos em sua saga de libertação – inclusive, da psicologia.

De modo a concretizar o exposto, o presente livro está estruturado em dez capítulos, reunindo autores de vários países latino-americanos, com os conteúdos possibilitando reflexões para além dos próprios países e suas particularidades. Iniciamos com David Pavón-Cuellar, que revisa, analisa e discute algumas das opções oferecidas a quem orienta o seu trabalho para a descolonização da psicologia latino-americana. Especificamente, o autor se debruça sobre o programa decolonial na psicologia, apontando suas vicissitudes. Nesse ínterim, aborda a relação da psicologia com a modernidade capitalista ocidental, a alternativa indígena mesoamericana na concepção de subjetividade, os efeitos psicologizantes da colonização, a condição psicológica pós-colonial da subjetividade na América Latina e a necessidade de uma luta anticolonial para despsicologizar e, assim, descolonizar a subjetividade.

No segundo capítulo, Nicolás Armando Herrera Farfán questiona como a construção da psicologia social se deu no quadro do projeto civilizador da Modernidade, levando-a a responder às necessidades e interesses do capitalismo, bem como, na América Latina, ela se desenvolve por meio do colonialismo intelectual e da geopolítica do conhecimento. A partir de tal crítica, o autor retoma o paradigma psicossocial que emerge nos anos 1970, de modo a refletir sobre a psicologia social diante dos problemas contemporâneos da América Latina.

Em Electivismo crítico: una clave para comprender la historia de la Psicología en Cuba, Roberto Corral Ruso e Asel Viguera Moreno propõem e exploram uma das chaves para a construção de uma história crítica da psicologia em Cuba, a saber, o “eletivismo crítico”, revelando-o como princípio atuante de suas teorizações e práticas. Realizando um amplo resgate histórico, os autores apresentam-na como chave para compreender e elaborar uma história crítica da psicologia cubana – e em extensão, latino-americana –, dando conta do surgimento de propostas originais, que transcendem as contribuições das grandes correntes europeias e estadunidenses da psicologia tradicional e contemporânea.

Posteriormente, Manuel Calviño nos conduz a uma instigante reflexão sobre o que caracterizaria a psicologia na América Latina. Seria apenas a sua localização geográfica, não importando como pensa e atua na realidade? Ou uma psicologia que, como o próprio autor aponta, vive e se alimenta da realidade latino-americana, que coloca a América Latina no centro de sua construção, “como prata nas raízes dos Andes”? Nesse ínterim, o autor nos convida a reescrevermos e produzirmos uma psicologia revolucionária, desde e para as nossas realidades, do nosso continente.

Isabel Fernandes de Oliveira, Gustavo de Aguiar Campos e Victor César Amorim Costa, no capítulo A psicologia na américa latina, as expressões da questão social e os problemas da dependência, qualificam o debate sobre as possibilidades e limitações da psicologia em suas interfaces com as políticas sociais, considerando as particularidades das formações sociais do continente latino-americano e sua condição de dependência frente aos países centrais. Para isso, os autores problematizam as relações capitalistas centro-periferia, como a questão social se desenvolve em países da América Latina, e, por fim, o papel que a Psicologia, especialmente como profissão no âmbito das políticas sociais, vem desempenhando para a conformação das relações de exploração ou para contribuir nas organizações da classe trabalhadora à serviço do questionamento dos fundamentos da sociedade burguesa.

No sexto capítulo, intitulado Psicología Comunitaria Latinoamericana. El fortalecimiento como proceso necesario ante las desigualdades sociales, María Lorena Lefebvre analisa o desenvolvimento da Psicologia Social Comunitária na América Latina. Segundo a autora, diferentemente do que ocorreu em outros contextos, a Psicologia Social Comunitária em nossa região conscientemente assume um compromisso político e ético com os grupos e comunidades afetados por nossas desigualdades estruturais e ainda mais abissais, dada nossa condição e desenvolvimento históricos. Para isso, aponta o fortalecimento comunitário como elemento-chave para a práxis comunitária, de modo a desafiar nossa realidade, promovendo a desideologização e a consciência da opressão e da injustiça.

Com o capítulo de Jorge Mario Flores Osorio, temos o início de uma série de trabalhos fundamentalmente sobre a práxis de Martín-Baró ou fundamentados nela para (re)pensar nossa realidade e a psicologia – o que não significa que os anteriores não se fundamentam no incontornável psicólogo e militante salvadorenho. No texto, o autor discorre e atualiza o projeto de psicologia baroniano e a sua opção consciente e preferencial pelos pobres, principais vítimas do modo capitalista da produção, desde sua fase liberal, cujas condições precarizadas e oprimidas se acentuam na atual fase neoliberal.

No oitavo capítulo, são analisadas as propostas de Psicologia da Libertação de Martín-Baró e de Alberto Merani, importante psicólogo argentino que viveu radicado na Venezuela. O trabalho, afiançado no materialismo histórico-dialético, consiste numa tentativa inicial de síntese dos autores supracitados, explicitando diálogos possíveis, algumas diferenças, ao mesmo tempo que orientando-as à crítica e transformação da psicologia face às necessidades de Nuestra América, por meio de um projeto ético-político libertador de (e da) psicologia.

Já Fernando Lacerda Júnior, no nono capítulo, apresenta uma análise de diferentes manuscritos de Martín-Baró sobre três temas que ganharam especial relevo na conjuntura brasileira desde o golpe de 2016: extrema-direita, democracia e revolução. Para o autor, a análise revela um Martín-Baró não tão difundido: crítico das democracias burguesas, simpático aos movimentos populares revolucionários e que concebe a Psicologia da Libertação como projeto ético-político que ultrapassa o capitalismo.

Finalizando, temos o capítulo Saúde mental em tempos de pandemia: os imperativos da situação-limite e as tarefas da psicologia, de Marcela Pereira Rosa e Solange Struwka. Nele, as autoras discutem a saúde mental da população brasileira na pandemia da Covid-19 desde o materialismo histórico-dialético, mais especificamente, nos pressupostos e conceitos de Martín-Baró e do Enfoque Histórico-Cultural. Ao compreender o contexto de pandemia como situação-limite, cujas raízes estão na crise estrutural do capital e em suas expressões na crise política brasileira, e entendendo a saúde mental como síntese das relações sociais, as autoras evidenciam como classe social, gênero e raça são determinantes históricos e objetivos das condições de vida da população brasileira e de sua saúde mental. A partir disso, refletem sobre as tarefas da psicologia com a classe trabalhadora, orientando-se à emancipação humana.

Sabemos que há muito o que se dizer, criticar e buscar construir sobre a psicologia em nossa realidade. A despeito de nossas intenções, vários(as) companheiros(as) valorosos(as) não puderam estar presentes no livro, assim como diversos contextos de nossa vasta região acabaram não sendo abarcados, apontando para a premência de continuarmos a costurar o universal e o singular nas particularidades de nossas formações sociais; de se continuar a extrair e edificar a unidade na diversidade não apenas em termos de Psicologia em Nuestra América, mas de uma psicologia orientada à produção de Nuestra América e, em última instância, à emancipação humana.

Por fim, gostaríamos de agradecer à LavraPalavra Editorial, que vem desempenhando um papel incontornável na divulgação de conhecimento socialmente referenciado, e que aceitou prontamente a empreitada, por meio de seu corpo editorial, possibilitando a publicação da presente obra. Torcemos para que, por meio do trabalho que aqui se põe, humildemente, consigamos somar mais alguns esforços para a continuidade da construção da Pátria Grande e de uma nova sociabilidade; a Nuestra América expressa na psicologia e enquanto projeto da mesma; una psicología nuestra para la Nuestra América.

Referências

LÓPEZ, M. M. Prometeo encadenado. Los obstáculos que confrontan los psicólogos para asumir una responsabilidad social alterna. Revista Puertorriqueña de Psicología, v. 3., n. 1, p. 65-76, 1985.

LUKÁCS, G. A destruição da razão. São Paulo: Instituto Lukács, 2020.

MARTÍ, J. Nuestra América. Caracas: Fundación Biblioteca Ayacucho, 2005.

MARTÍN-BARÓ, I. Para uma psicologia da libertação. In: GUZZO, R. S. L.; LACERDA JÚNIOR, F. (Orgs.). Psicologia social para América Latina: o resgate da psicologia da libertação. Campinas: Alínea, 2011. p. 101-120.

MARTÍN-BARÓ, I. Psicologia Política Latino-americana. Rev. psicol. polít., v. 13, n. 28, p. 559-573, 2013.

1 “Estos tiempos no son para acostarse con el pañuelo en la cabeza, sino con las armas en la almohada, como los varones de Juan de Castellanos: las armas del juicio, que vencen a las otras”.

2 Coquí é um sapo nativo de Porto Rico.

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