Nações e Sovietes: a questão nacional na URSS

Por Eugene Puryear, via Liberation School*, traduzido por Thiago Lopes

O passado, dizem, nunca realmente passa. Em meses recentes, a política de nacionalidade soviética, um assunto que muitos pensavam estar restrito a remansos acadêmicos e happy hours comunistas, foi lançado na linha de frente do debate público. A guerra aquecida na Ucrânia trouxe à tona questões sobre fronteiras, línguas e etnicidades do país. Como ficaram assim, quem é responsável, e como essas questões impactam as causas e as consequências da atual crise?

O debate, contudo, tem sido algo parecido com uma batalha entre nacionalismos em duelo. Em resposta ao nacionalismo ucraniano de extrema direita, o presidente russo Vladimir Putin declarou suas próprias visões nacionalistas, culpando os bolcheviques por armar o palco para as tensões entre a Rússia e a Ucrânia hoje.

Absorvendo ambos os lados da crítica, uma pessoa pode ser levada a crer que a União Soviética era algum tipo de império brutal e venal que mantinha cativas as aspirações justas de suas várias nacionalidades e etnias, manipulando “fronteiras nacionais” para gerar nações falsas e consciências nacionais falsas.

A verdade está longe das histórias contadas tanto pelos nacionalistas ucranianos quanto por Putin. A União Soviética foi a tentativa mais avançada na abordagem da opressão nacional, do racismo e da discriminação a nível de país. Entre muitas outras coisas, a URSS foi a primeira nação a engajar-se em ações afirmativas em níveis nunca alcançados em outros países, antes ou depois dela.

Os soviéticos pegaram centenas de nacionalidades e encaixaram-nas sob uma autoridade governamental que enfrentou atraso econômico e repressão cultural para abrir um futuro liberador para povos que haviam passado séculos sob o jugo das ambições imperiais dos czares.

Na verdade, a profundidade da tragédia que se abate sobre a Europa Oriental no momento só pode ser completamente compreendida sob a luz do esforço soviético de décadas de colocar um fim no antagonismo nacional e forjar um futuro baseado na unidade das pessoas trabalhadoras e pobres para seus próprios benefícios coletivos, e os da humanidade.

A CADEIA DAS NAÇÕES

O império czarista era conhecido, em certos círculos, como “a cadeia das nações”. Do século XI ao XIX, os vários czares, de Ivan o Terrível a Catarina (e Pedro) a grande, tomaram controle de um vasto território que ia do Pacífico até a Europa Central e do Círculo Ártico até o Mar Negro e as estepes da Ásia Central. Sob suas bandeiras estavam perto de 200 nacionalidades e etnias e uma verificável Torre de Babel de línguas.

Em todas as nações, a exploração e a desigualdade eram desenfreadas. Noventa por cento das pessoas não-russas do império eram analfabetas – 75% dos russos estavam na mesma situação. Em um esforço para criar uma estratégia bem sucedida de dividir e conquistar, a autocracia czarista reservava a educação superior para o grupo mais privilegiado de russos, ou seja, médicos, professores e outros profissionais nas regiões de nacionalidade oprimida eram quase exclusivamente russos. Na Basquíria, aninhada entre o Volga e os Urais, apenas 10 dos mais de quatro mil estudantes secundários eram básquires. Nas cidades principais, nacionalidades oprimidas preenchiam as fileiras dos trabalhadores com pior remuneração. Foi uma vez dito que todo “sapato preto” em Moscou era da região do Cáucaso e que um terço de todos os tatares eram zeladores, porteiros e “catadores de trapos”.

Os czares usavam outorgas de terra e colonização nas terras das nações oprimidas pelos russos como parte de um esforço mais largo de “russificação”, pensado para eliminar línguas e culturas nacionais. Por exemplo, os carélios falam uma língua próxima do finlandês, mas a venda de uma bíblia em finlandês era punível com exílio, e crianças em idade escolar eram proibidas de falar o idioma dos carélios. Os governantes profundamente antissemitas empreenderam um regime de terror contra judeus no estilo da KKK, conhecido como os Cem Negros, cujas ações de violência assassina eram tão notórias que o temo “pogrom” se tornou conhecido ao redor do mundo. Guetos eram as normas em muitas cidades grandes e pequenas à medida que as várias nacionalidades eram guiadas aos enclaves do capitalismo russo em desenvolvimento.

A oposição ao casamento interétnico e inter-religioso também combinava bem com o racismo e a intolerância oficiais. Ademais, os czares não se furtavam de colocar várias nacionalidades umas contra as outras em competição por oportunidades econômicas e de uso da terra. A opressão nacional, no período, tinha também múltiplas camadas, com alguns grupos étnicos também oprimindo outros enquanto enfrentavam grande chauvinismo russo.

Isto criou uma cultura opositiva única, particularmente entre comunistas. Havia nacionalistas radicais, representando o desejo de elites nacionais por supremacia econômica em seus próprios territórios, conectando a “libertação” à independência formal. Havia socialistas que acreditavam que os antagonismos nacionalistas eram de importância secundária, salientando a unidade de todos os trabalhadores sob a classe dominante czarista. Havia outros tipos de socialistas e comunistas que acreditavam que radicais deviam se organizar baseados em nacionalidade e, por extensão, em federações de nacionalidades. E então havia os bolcheviques, que pregavam unidade multinacional de trabalhadores e camponeses contra o czar e os capitalistas e proprietários dominantes – enquanto colocavam também foco intensivo na oposição militante a todas as formas de opressão nacional e intolerância.

A abordagem geral dos bolcheviques estava enraizada em uma compreensão da opressão nacional como um produto do capitalismo e do imperialismo. O processo de abocanhamento de nações pelos czares estava ligado a uma fome pela terra, por recursos e trabalho para crescer suas riquezas e competir com outras forças imperiais que buscavam o mesmo.

A conclusão principal dos bolcheviques era que nunca seria possível construir uma coalizão dos oprimidos e explorados e derrubar os governantes, sem salientar que a libertação verdadeira requisitava a destruição total da opressão nacional e a suplantação do capitalismo. Assim, uma enorme parte do programa bolchevique era “o direito das nações à autodeterminação”. Enquanto reforçando, como comunistas sempre fizeram, que o socialismo e o comunismo requerem que a unidade multinacional transcenda as fronteiras nacionais instaladas por capitalistas rivais, eles afirmavam que o compromisso deles à libertação nacional era tal que se a secessão fosse o que precisasse para que pessoas oprimidas se sentissem livres, eles a apoiariam. Estes seriam os princípios básicos que os ajudariam a chegar ao poder, e a prover a base para a abordagem soviética às nacionalidades.

O ALVORECER DE UMA NOVA ERA

Após a revolução de 1917, a abordagem à opressão nacional era um dos vários desafios profundamente complexos: finalizar a participação na I Guerra Mundial, alimentar a população que morria de fome e redividir as grandes porções de terra entre os camponeses. Tudo isto estava acontecendo no contexto de hostilidade extrema vinda do imperialismo. Catorze nações capitalistas enviaram tropas para tentar, como Winston Churchill diria posteriormente, “estrangular o bolchevismo em seu nascimento”. As mesmas nações também enviaram armas, ouro e outros equipamentos de guerra para qualquer aspirante a governante – desde que odiasse o comunismo.

Isto imediatamente criou um novo conjunto de questões que tinham a ver com as nacionalidades, principalmente que (como os bolcheviques já haviam notado há muito) a luta nacional e a luta de classes estavam entrelaçadas. Isto significou que estas lutas se tornaram rapidamente armadas pelas várias forças que tentavam derrubar o poder soviético.

Complicando as questões mais ainda estava o fato de que o conglomerado de etnias e povos, emergindo como emergiram do mundo pré-capitalista, raramente tinham uma história clara de “fronteiras nacionais”. Significando que as lutas iniciadas pela revolução de 1917 foram tanto sobre definir (e debater) a relação entre língua, cultura, religião e território, quanto sobre resolvê-las. Muitas lutas por “libertação nacional” no período pós-1917 foram também lutas sobre como uma dada área deveria ser governada, e se tal empreendimento seria melhor realizado através de estados formalmente independentes ou como parte de uma federação maior soviética que unisse as várias nações em um projeto socialista.

Isto levou a um conjunto complexo de eventos que não podem ser completamente sumarizados aqui, mas essencialmente, se resumiram a divisões entre elementos de nações oprimidas que preferiam “fazer sozinhas” em aliança com potências imperialistas e revivalistas czaristas, e aqueles já parte do movimento bolchevique ou atraídos por suas políticas antirracistas e “pró-pobres”. Na maioria dos casos, essas questões foram resolvidas por força bélica.

Isto levou a um leque de diferentes lutas, entre nacionalistas e comunistas (Ucrânia), comunistas e nacionalistas contra senhores feudais (Bucara), bolcheviques contra mencheviques (Geórgia) e praticamente todas as outras variações. No fim, dezenas de milhões de pessoas não-russas atrelaram suas terras natais à federação socialista maior que era a URSS.

Em meados da década de 1920, a “forma” da URSS, até a II Guerra Mundial, estava posta – a maioria do império czarista menos os estados bálticos e elementos de repúblicas ocidentais que foram para vários impérios da Europa Central. A próxima década mais ou menos seria uma época de experimentação, seguida por uma consolidação do modelo geral que permaneceria pelo resto do período soviético.

O SOCIALISMO CONTRA A OPRESSÃO

Enfrentando desemprego, falta de recursos e sem um roteiro a seguir, a liderança soviética não obstante inicia rapidamente tentativas de abordar os desafios de séculos de opressão nacional. A política soviética enfatizava o apoio a “formas nacionais” autodeterminadas que seriam também calibradas para existir dentro de um arranjo maior de construção socialista. Este processo não se deu sem contradições.

Um projeto socialista tem a tarefa de dirigir os recursos de uma sociedade visando a obtenção de suas vontades e necessidades democraticamente determinadas. Mas no contexto de subdesenvolvimento profundo, quase tudo se torna algum tipo de troca. Você deve construir uma ponte ou uma barragem? E onde? Se o analfabetismo está alto, mas você só tem recursos para um determinado número de escolas, professores e livros, quem leva a prioridade? Em outras palavras, o dilema era como equilibrar a melhoria geral no bem-estar coletivo ao mesmo tempo em que fechar lacunas diferenciais entre nações oprimidas – todas em níveis bastante variáveis de desenvolvimento/subdesenvolvimento.

Através dos anos da existência da União Soviética estas questões nunca foram completamente resolvidas, mas os elementos centrais da abordagem soviética foram: a criação de territórios nacionais, promoção de línguas e culturas nacionais e políticas extensas de ação afirmativa. Ênfases em vários aspectos destas políticas variaram com o tempo e o espaço, mas geralmente permaneceram verdadeiras e refletiram os objetivos maiores da revolução de que se levantassem os padrões de vida, ao mesmo tempo em que fossem integradas nacionalidades oprimidas, particularmente à intelligentsia técnico-científica.

Como um estudo da questão de 1991 notou: “o aumento de oportunidades de mobilidade foi maior entre nacionalidades com menores níveis de consecução socioeconômica”. [2]

Por exemplo, à altura de 1975, judeus, georgianos, armênios, estonianos e azeris formavam os cinco grupos étnicos com maiores “especialistas com educação superior” [3]. Como a tabela abaixo reflete, a equalização ao longo do tempo denota as prioridades soviéticas [4].

De maneira relacionada, em 1970, as seis maiores nacionalidades em termos de matrículas em educação superior eram: estonianos, georgianos, lituanos, letões, russos e cazaques. Na Ásia Central Soviética, onde poderia se argumentar ser a parte mais subdesenvolvida do império czarista, à altura de 1982 havia mais médicos por população do que em qualquer país não comunista exceto Israel, e mais estudantes de faculdade por população do que no Japão, além de uma maior proporção de mulheres [5]. No Ártico Soviético o primeiro sistema real de educação foi instalado à altura dos anos 1930, e, em 1975 no Território Nacional Chukchi, 99,1% de todas as crianças indígenas estavam matriculadas, da pré-escola ao ensino médio [6].

Em 1978, havia um médico indígena a cada 1000 pessoas, no mesmo ano nos Estados Unidos, havia apenas um médico indígena para cada 16000 pessoas [7]. Na Moldávia, antes da Segunda Guerra Mundial, havia uma pessoa com um PhD – à altura dos anos 1980, haviam 2200. Moldávios tiveram um aumento de 110% em ocupações profissionais e paraprofissionais entre 1959 e 1973 [8]. De maneira similar, de 1950 a 1975 nas 14 “repúblicas unidas” não russas (Cazaquistão, Georgia, etc.), o crescimento anual de trabalhadores científicos era 54% maior do que entre russos.

As três maiores nacionalidades na URSS eram – de longe – russos, ucranianos e bielorrussos. À altura dos anos 1960 todas as três estavam sub-representadas no Soviete Supremo – o corpo legislativo principal – enquanto uzbeques, georgianos, tajiques, azeris, armênios, quirguistaneses, turcomenos, letões, estonianos, lituanos e komis, entre outros, estavam todos super-representados.

Um exame do orçamento soviético de 1989 notou que a política governamental tendeu ao princípio redistributivo, demonstrando no orçamento de 1989 “transferência de renda de repúblicas mais desenvolvidas para menos desenvolvidas” e ademais, “repúblicas menos desenvolvidas receberam taxas maiores de investimento do que as previsões que poderiam vir de uma análise de seus níveis de desenvolvimento econômico. E gastos per capita com programas de saúde e educação tem sido relativamente igualitários entre as repúblicas” [10]

Em 1920, o Azerbaijão importava quase todos os seus produtos exceto petróleo. À altura de 1958, eles exportavam 120 bens industriais diferentes e produziam per capita mais eletricidade do que a Itália e a França, mais aço do que o Japão e a Itália, e tinha um setor de pesca maior do que o da França. [11]

Além de tudo isto, a legislatura nacional tinha dois níveis. Em adição ao Soviete Supremo, havia também o Soviete de Nacionalidades, que deveria aprovar toda legislação para que esta se tornasse lei. Mesmo que este corpo aprovasse questões automaticamente, como frequentemente se acusa, o sentido geral de políticas nacionais reflete claramente que a própria existência de múltiplas camadas de ação afirmativa, acesso a línguas e melhoria social refletem que estavam aprovando automaticamente políticas relativamente antirracistas.

Um escritor registrou uma história de um encontro – uma conversa com um professor universitário – do povo Gagauz da Moldávia (população de cerca de 125 mil pessoas em 1977) cujo alfabeto escrito havia sido criado durante a época soviética. O professor salientou:

Nós temos artistas, temos compositores, temos nossos próprios poetas e escritores: aqueles que escrevem à base de temas populares… e aqueles que coletam o nosso folclore. Entre acadêmicos temos linguistas e historiadores. A antropologia dos Gagauz está sendo estudada… em Moscou temos o camarada Guboglo.”

O escritor em seguida registra:

Eu admito, me surpreendi de saber que Guboglo era Gagauz; Eu já havia traduzido artigos dele para o inglês… então um dos maiores antropólogos da União Soviética, um homem que teoriza sobre questões muito além das fronteiras de sua própria nacionalidade, é membro de um povo que não tinha nem alfabeto pouco mais de 20 anos atrás” [12]

O mesmo autor nota: “Em Dagestan, uma caída vastidão montanhosa com apenas um milhão e meio de pessoas, a noroeste do Irã, a escola atualmente se ensina em nove idiomas… A instrução ao redor da URSS se faz em 52 idiomas dinstintos”. [13]

Em um esforço de se abordar a penetrante russificação na Ucrânia, autoridades soviéticas perseguiram um esforço agressivo de “ucranização linguística” nos anos 1920, onde literalmente centenas de milhares de pessoas foram colocadas em cursos de ucraniano. Em 1923, 37% de jornais eram em língua ucraniana, na altura de 1928 já eram 63%. Cinquenta e quatro porcento dos livros impressos na Ucrânia eram em ucraniano em 1928, 31% haviam sido em 1923. [14]

Em 1991, os soviéticos fizeram um referendo sobre se o país deveria ser dividido ou não, de maneira notável para nossos propósitos, o voto na Rússia era menor do que em todas as nações oprimidas onde o referendo tomou lugar. Nas repúblicas da Ásia Central acima de 90% votaram pela permanência da URSS, por exemplo, contra 73% na Rússia. Notavelmente, as regiões nacionais no interior da República Socialista Russa viram maiores percentagens pró-soviéticas do que a grande Rússia, com 9 das 16 com mais de 80% dos votantes em favor de não repartir a URSS. [15]

Outra maneira de olhar para isto é através das mentes da memória histórica. Em 2013, Gallup questionou pessoas em algumas das antigas repúblicas soviéticas sobre se sentiam que a divisão da União trouxe mais coisas ruins do que boas em seus países. A Armênia, o Quirguistão e a Ucrânia todos tiveram altas percentagens de pessoas dizendo que trouxe mais coisas ruins do que teve a Rússia, com o Tajiquistão vindo apenas 3% atrás da Rússia. [16]

Em 2005, uma pesquisa foi feita no Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão, perguntando às pessoas se concordavam ou discordavam da afirmação: “O governo soviético respondia às necessidades dos cidadãos”. 82,4% dos cazaques concordaram que o governo soviético de fato respondia às necessidades dos cidadãos. 87% daqueles no Quirguistão sentiam-se de maneira similar, e 70,2% no Uzbequistão concordavam. [17]

Em um artigo da Reuters de 2011, “Nostalgia soviética amarra estados divergentes da CEI”, uma dona de salão de beleza do Quirguistão de 46 anos disse à publicação: “Talvez nossos salários não fossem tão bons, e eu odiava a ‘Cortina de Ferro’ acima de tudo, mas havia estabilidade. Haviam repúblicas fraternas por perto, e você sentia o ombro de seu vizinho” [18]

No mesmo artigo, Saijon Artykov, um geólogo aposentado de 67 anos, refletiu que: “Nós tínhamos bons salários e eu comprei um apartamento em Dusanbe. Agora nós lutamos… para sobreviver”. Dizendo ainda que: “O governo soviético me deu educação de primeira classe, pela qual eu não paguei” [19]

 

MUDANÇAS DESAFIADORAS

As variadas contradições do modelo soviético impactaram pesadamente na questão da nacionalidade. Particularmente atormentadoras para os soviéticos eram questões de terra, distribuição de recursos e línguas. Enquanto “impulsos nacionais” eram vistos como naturais, não eram vistos como inerentemente bons. Como socialistas, o Partido Comunista da União Soviética estava tentando construir uma sociedade “internacionalista” a partir dos valores socialistas.

O marxismo coloca que o nacionalismo é, em última análise, uma criação do capitalismo, a luta de capitalistas em ascensão para criar um território consolidado e politicamente distinto para conduzir o seu comércio. O processo de marcação de fronteiras dentro das quais línguas, culturas e características naturais se combinam para criar sistemas funcionantes de compra e venda com “pesos e medidas” unificados (dinheiro, impostos, etc.) seria o processo de “construção nacional”.

O socialismo, e em última instância o comunismo, busca transcender o capitalismo através de, entre outras coisas, a eliminação destas barreiras artificiais para melhor facilitar o uso de um “mercado mundial” profundamente interligado, para democraticamente atender às vontades e necessidades das pessoas – em oposição à servidão aos caprichos do lucro colhido por uma diminuta porção de pessoas, como acontece sob o capitalismo.

Os soviéticos então enxergavam sua tarefa de apagar a opressão nacional como uma ponte em direção a um estado multinacional que encorpasse os princípios socialistas mais gerais. Então isto significou ter os imperativos essencialmente simultâneos de apagar a opressão nacional, celebrar culturas nacionais e situá-las todas no interior de uma “união geral” cultural baseada na melhoria econômica da classe trabalhadora e do campesinato, que agora comandavam os recursos da sociedade.

No que se refere aos idiomas, isto criou alguns desafios claros. A história brutal dos czares já havia tornado o russo a língua comum para a população soviética mais larga. Entretanto, esta “russificação” foi imposta através da brutalidade do jugo econômico czarista. Ela também veio com a concepção chauvinista de que a cultura russa representava uma “forma mais alta de civilização” – relacionada à cultura moderna e urbana, na qual muitas pessoas da classe trabalhadora estavam integradas em algum nível. Esta era uma questão de maior importância dado que uma das principais áreas onde a sociedade havia saltado à frente após a revolução foi a abertura, a milhões, de léxicos culturais tradicionais anteriormente segregados por questões de status de classe.

Isto significou que, mesmo entre as nações oprimidas, poderia haver resistência a novas políticas de idiomas, em particular entre trabalhadores urbanos, que associavam idiomas nacionais com as culturas rurais e frequentemente reacionárias do campesinato.

A URSS e os impérios precedentes cobriam um vasto território e, como mencionado anteriormente, os russos frequentemente recebiam do czar termos de povoamento de terras entre vários povos oprimidos. Esta política criou intencionalmente uma população favorecida de pioneiros que frequentemente detinham parcelas preferenciais de terra. Isto foi o que construiu a base de um conflito agudo sobre quem deveria, de maneira justa, permanecer em qual lugar e a quem pertencia o poder político. Levou também a questões sérias sobre terra enquanto recurso e, mais à frente, quem teria direito a vetar quem viveria onde, se esta noção se conflitasse com necessidades de desenvolvimento.

Uma matéria que acentuou questões sobre como exatamente distribuir recursos limitados foi que a União Soviética estava em uma corrida para alcançar um nível de ao menos paridade grosseira com o Ocidente em variados pontos, como uma salvaguarda contra invasões e tentativas de sobrepujança vindas destas mesmas potências hostis. Estas se tornariam as linhas de falha da política de nacionalidade na URSS. Em última análise, elas foram todas resolvidas através de uma tendência geral ao lado “união total” das coisas, ao invés de ao lado “nacional” das coisas. Isto significou conciliação até certo grau com os elementos de “união total”, que eram principalmente resquícios da semi-homogeneização forçada da época dos czares.

Sobre idiomas, isto significou em última instância um passo atrás a partir dos esforços ambiciosos que requeriam o uso de várias línguas nacionais, mais ou menos limitando a prática aos espaços onde ela era mais factível: educação básica, atividades culturais nacionais, que foram pesadamente expandidas e promovidas, e onde a adoção voluntária aconteceu. Isto significou que o russo permaneceu a língua dominante na União, mas que línguas nacionais previamente suprimidas voltaram ao uso frequente.

Este foi obviamente um importante passo à frente a partir da época czarista, e levou a um florescimento mais completo de muito mais línguas do que jamais havia sido possível previamente. Contudo, também tendia a significar que a cultura “russa” permaneceu dominante até certo grau, sendo a língua principal com a qual as questões sociais, econômicas e políticas cruciais eram conduzidas. Por exemplo, significou que seria mais fácil que Tchaikovsky se tornasse popular no Tajiquistão do que uma ópera tajique alcançar o estrelado em Moscou. Embora isto também significasse um alcance enormemente expandido da ópera tajique no Dushanbe.

De uma perspectiva fundiária, em última análise, as realidades contextuais da URSS favoreceram um status quo menos modificado. Até 1927, os soviéticos fecharam ao povoamento vastas extensões de território, especialmente na Ásia Central. Isto, contudo, se tornou insustentável baseado nas considerações sobre comida, desenvolvimento econômico e segurança nacional.

A base da soberania no mundo moderno imperialista é, em última instância, o controle sobre o que você come. Nações incapazes de se alimentar estão sempre em profunda desvantagem. Muitos territórios nacionais continham terras de extensões muitas vezes superiores ao que poderia ser trabalhado por aqueles que ali já estavam. E, mesmo em situações rurais mais densas, às vezes a terra mais produtiva era aquela habitada por ocupantes mais recentes. Adicionalmente, os soviéticos, naquela altura em hesitante marcha forçada, queriam mudar a estrutura da agricultura de propriedades gigantes e ranchos pequenos atomizados para um setor cooperativo e coletivo. Os imperativos apresentados por estas várias questões poderiam colidir facilmente.

Primeiramente, se o nível geral da produção alimentar para o país inteiro poderia ser aumentado se colocando mais pessoas X em um lugar Y, este se torna um imperativo estratégico – confirmando ao mesmo tempo desenvolvimento e distribuição igualitários – que pode acabar reforçando mudanças demográficas que favoreçam uma nacionalidade sobre outra. Uma questão similar pode surgir se, por exemplo, uma área da Ucrânia que é grosseiramente 45% etnicamente alemã, e antes cuja população antes da revolução controlava 75% da terra, mas durante a coletivização os alemães adotaram políticas coletivistas mais rapidamente. Isto pode significar que a posição dos alemães nas melhores terras continuaria. No período imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, a destruição total da máquina de guerra nazista contra a URSS significou que a única maneira de realmente reviver a produção foi a “abertura” de novas terras, que, é claro, poderia também exacerbar tensões históricas.

Ou você pode ter uma situação onde certa população próxima a uma fronteira ou a um importante recurso natural onde maquinações imperialistas representem um perigo especial à larga segurança nacional da URSS requeiram políticas especiais para que se certificasse de que estas questões não seriam exploradas.

Estas várias questões relacionadas ao uso da terra são a base de muitas das mais brutais políticas implementadas contra grandes porções ou até populações inteiras na era de Stalin. Temas nacionalistas frequentemente se tornaram pontos de encontro político para vários descontentamentos, especialmente onde eles tinham a ver com interesses percebidos de segurança nacional que resultavam em punições coletivas como deportações em massa.

Sem dúvida muitas destas ações não tem justificação, mas elas são frequentemente representadas falsamente como “antinacionais”, sendo a nacionalidade uma questão realmente secundária. Povos foram alvejados porque eram vistos como opositivos a um objetivo particular da liderança.

No que se refere a recursos, é verdade, como alguns tem notado, que nunca houve nenhum mecanismo “oficial” para dirigir uma porcentagem específica dos recursos nacionais para nações oprimidas. Entretanto, haviam frequentemente taxas únicas em orçamentos anuais que pudessem abordar estas questões, e como os registros gerais demonstram, o sentido geral da política soviética fez com que o investimento nas variadas nações oprimidas fosse frequentemente, em uma base proporcional, igual ou maior do que aqueles feitos na Rússia. De fato, é largamente notado por acadêmicos que a insatisfação entre russos de que estes estavam em desvantagem se comparados às várias outras nacionalidades foi um dos fatores mais importantes na direção do sentimento antissoviético.

De maneira similar, a direção geral rumo à igualdade criou, paradoxalmente, mais competição entre elites nacionais recém empoderadas sobre os recursos ainda relativamente escassos da URSS. De maneira suficientemente irônica, na época, o próprio sucesso dos soviéticos na diminuição da opressão nacional começou a criar novas tensões em linhas nacionais que contribuíram ao colapso soviético.

RUMO A UM FUTURO SOCIALISTA

Todas as várias questões mencionadas aqui merecem, é claro, discussão mais aprofundada. Todavia, é possível, a partir do exposto, traçar algumas conclusões gerais. Primeiramente, a URSS embarcou no maior experimento já conhecido na história do mundo no que se refere a unificar povos através de fronteiras nacionais para a melhoria das condições coletivas. Eles eliminaram os pogroms, permitiram que muitas línguas nacionais crescessem e florescessem, colocaram recursos reais por trás da promoção de culturas nacionais e transformaram em prioridade nacional a colocação de pessoas de nações previamente oprimidas em posições de influência e poder.

Em segundo lugar, eles realizaram estas coisas no contexto de aumento do padrão de vida do país inteiro a níveis vastamente superiores àqueles verificados em tempos czaristas, acima de todas as nações do mundo desenvolvido, e atingiram uma paridade grosseira com as nações mais avançadas na Terra com velocidade notável.

Naquele contexto, a inabilidade dos soviéticos em eliminar totalmente o antagonismo entre nações deve ser visto sob uma luz diferente. Em última análise, quais as chances que eles realmente tinham de ser bem sucedidos neste objetivo na ausência de transformações maiores a nível mundial? Milhares de anos de opressão nacional amarradas nas realidades materiais do desenvolvimento capitalista e da posse feudal da terra nunca seriam completamente resolvidas no que foi, em última instância, apenas algumas poucas décadas no escopo histórico.

Ademais, no contexto de campanhas massivas vindas da nação mais poderosa do mundo rumo à destruição da URSS, como seria possível que a URSS não apresentasse distorções impostas pela sua própria necessidade de sobrevivência? Este ponto impactaria elementos da política desde o social até o nacional.

Não apenas na política de nacionalidades, mas em questões a ver com tudo, desde direitos femininos até salários, a política soviética dava passos atrás em suas políticas frequentemente pioneiras (para o mundo todo) em nome da consolidação de um sentimento maior de unidade nacional em torno de um projeto socialista, ou para resolver problemas práticos com métodos antigos quando a experimentação poderia significar risco de perda maior do que ganhos em potencial.

A guerra na Ucrânia confirma de maneira mais profunda o nível de tragicidade do colapso soviético, apesar de todos os seus desafios e problemas. O pluralismo cultural-nacional dos soviéticos deu lugar a agendas nacionalistas orientadas por interesses capitalistas de todos os lados. As classes dominantes pós-soviéticas tem todas as razões para dar queixas (nem todas sem justificação) que as garantam território, e, em última análise, o espaço onde se possa assegurar seus lucros em um sentido puramente comercial, ou no que se refere a suas integridades nacionais.

Vinte e sete milhões de soviéticos de todas as nacionalidades morreram na Segunda Guerra Mundial. Apesar das tentativas vigorosas dos nazistas de usar a nacionalidade enquanto uma arma anticomunista, eles falharam, e a unidade socialista multinacional impulsionou a máquina de guerra soviética até a vitória – uma diretriz antirracista que cai muito bem como mestre do funeral a enterrar o nazismo.

A unidade socialista colapsou em barbarismo capitalista, o que não deveria realmente ser uma surpresa. É o que de fato as forças genuínas do comunismo na URSS sempre predisseram que aconteceria no caso de um colapso do país. Agora, mais do que nunca, é importante que nos lembremos do exemplo brilhante da União Soviética no embate ao ódio, à intolerância e à xenofobia, à medida em que procuramos por novos caminhos rumo a um futuro mais pacífico, sustentável e socialista.

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REFERÊNCIAS

[1] Mandel, W. (1985). Soviet But Not Russian: The ‘Other’ People’s of the Soviet Union (Ramparts Press), 40-42.

[2] Roeder, P. G. (1991). Soviet Federalism and Ethnic Mobilization (World Politics). Available here.

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Mandel, W. (1985). Soviet But Not Russian: The ‘Other’ People’s of the Soviet Union (Ramparts Press), 133.

[6] Ibid., 157.

[7] Ibid., 160.

[8] Ibid., 108.

[9] Roeder, P. G. (1991). Soviet Federalism and Ethnic Mobilization (World Politics). Available here.

[10] Ibid.

[11] Iskenderov, M. (1959). Azerbaijan: A Land in Bloom (7 Stupendous Programme). Available here.

[12] Mandel, W. (1985). Soviet But Not Russian: The ‘Other’ People’s of the Soviet Union (Ramparts Press), 18.

[13] Ibid., 22-23.

[14] Martin, T. (2001). Affirmative Action Empire: Nations and Nationalism in the Soviet Union, 1923–1939 (Cornell University Press), 92-93.

[15] 1991 Soviet Union Referendum. Wikipedia. Retrieved June 6, 2022. Available here.

[16] Esipova, N. & Ray, J. (2013). Former Soviet Countries See More Harm From Breakup (Gallup). Available here.

[17] McMann, K. M. (2005). Central Asians and the State: Nostalgia for the Soviet Era (NCEER). Available here.

[18] Solovyov, D. (2011). Soviet nostalgia binds divergent CIS states (Reuters). Available here.

[19] Ibid.

*Nota do editor original: Este artigo foi originalmente publicado na revista Liberation News em 6 de junho de 2022.

 

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