“Webrevolucionários” e a esquerda anticomunista

Por Theo Dalla

As hordas da direita sempre se utilizaram de caricaturas toscas e moralizantes para deslegitimar a militância de esquerda, em especial a comunista. O mais conhecido (“comunista de iPhone”), que pretende apontar uma suposta contradição entre práxis revolucionária e consumo individual, posição política e origem de classe, hoje, encontra sua continuidade em uma nova palavra propagada por setores da “esquerda”, fantasiada de pragmatismo e maturidade política: “webrevolucionário”. Sua essência anticomunista, no entanto, permanece viva e pulsante.

Seria surpreendente tal convergência entre a direita e a “esquerda progressista” (mais precisamente, social-liberal e reformista), se não fosse expressão das aberrações de nossos tempos, em que Lula-Alckmin deixou de ser uma especulação improvável para se tornar a “única alternativa viável”. A convergência, portanto, não se resume ao discurso: é expressão de uma aliança política e ideológica, em que o combate ao fascismo é – à mesma medida, se não com mais intensidade – o combate à sua única solução definitiva: o socialismo-comunismo.

Em momentos de crise política e econômica, as posições das diferentes forças políticas que atuam em dado cenário tendem a se explicitar com cada vez mais exatidão e, consequentemente, também se delineia melhor sua origem de classe. Esta tendência não poderia deixar de se expressar nas redes sociais, que nos últimos anos tem assumido um importante papel como terreno da disputa de ideias, dada sua notável capacidade de difusão e relativa possibilidade de acesso. Ali, se manifestam as drásticas consequências da conciliação de classe: a confusão ideológica e a penetração do ideário liberal reacionário na “esquerda progressista”.

Hoje, quaisquer posicionamentos críticos à conciliação, aos compromissos com a classe dominante que representam traições aos interesses populares, são respondidos com vãs tentativas de desmoralizar o(a) autor(a) e justificar as alianças espúrias, o que acaba sempre reforçando a propaganda anticomunista: “O que você quer falando em reforma agrária?! Tem que acabar com os ‘webrevolucionários’”; “Você não fez nem metade do que o Lula e acha que tem moral para criticar. ‘Webcomunistas’ só sabem tuitar”. Estas vociferações, que acontecem espontaneamente – ainda que sua base teórica seja planejadamente difundida – são feitas por militantes, não-militantes, sub-celebridades, influenciadores, “páginas de esquerda” e outros elementos que, em geral, se identificam com o petismo.

Estigma e realidade: breves notas sobre comunistas no Brasil contemporâneo

É verdade que as organizações comunistas ainda estão muito aquém do tamanho necessário para sozinhas organizar e mobilizar as massas de trabalhadores(as) e povos oprimidos do Brasil. Os principais partidos que se pretendem revolucionários, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a Partido Comunista Revolucionário (PCR), ainda contam com estruturas organizativas e financeiras pequenas, pouca penetração nas massas, e, principalmente, poucos quadros políticos bem formados teórica e praticamente. Isso, de forma alguma, é o mesmo que chamar tais organizações de insignificantes. Pelo contrário, cada vez mais sua influência na luta de classes aumenta. A prova está nas ruas, nas lutas cotidianas, e não nos números eleitorais – ainda que estes tenham crescido notadamente das últimas eleições para cá e a projeção destes partidos no cenário nacional já represente uma pedra no sapato da burguesia, que não mais pode ignorá-los.

Por outro lado, é preciso reconhecer algumas debilidades. A inserção dos Partidos Comunistas ainda está muito limitada às universidades e ao serviço público, espaços em que a militância política se mantém com certa estabilidade, em especial por conta das condições de trabalho ou do histórico de luta política próprio do ambiente (como é o universitário, por exemplo, ainda que esteja longe de representar uma hegemonia da esquerda comunista). Daí se deduz alguns problemas no Movimento Comunista brasileiro, como a composição social de sua base e direção – ainda majoritariamente de setores médios da classe trabalhadora (trabalhadores mais bem remunerados em comparação à média nacional) e pequeno-burguesa (ainda que em menor medida) –, o que implica em certa dificuldade de expansão e mediação, no discurso, com a consciência média das massas trabalhadoras. Mas, de forma alguma, isso significa que, essencialmente, tais condições invalidam a luta comunista no Brasil, menos ainda que todos os posicionamentos dos comunistas brasileiros sejam expressão de “rebeldia pequeno-burguesa”.

A despeito disso, é preciso pontuar que tal quadro tem se modificado nos últimos anos. Os partidos comunistas têm cada vez mais inserção em bairros periféricos, escolas públicas, movimentos sociais e de cultura popular.

Reconhecer estas debilidades, em vez de provar a tese de que o comunismo não é uma força política relevante, prova que está vivo, se desenvolvendo, em processo contínuo de expansão, crescimento e consolidação, o que não se dá sem contradições. Se, de 2002 a 2014, no auge do petismo, a opinião comunista não tinha qualquer repercussão ou importância no cenário nacional, hoje, nossa modesta envergadura e influência já exige que sejamos alvo tanto da direita, quanto da esquerda conciliadora. Essa força não se cria de forma repentina, mas, justamente pelo nosso crescimento que, antes de se expressar nas redes sociais, é produto de trabalho cotidiano nas ruas, escolas, universidades, sindicatos, bairros, grupos culturais etc.

Tanto como é impossível falar da História do Brasil sem falar do PCB, como diria Ferreira Gullar, também mentirão aqueles que negarem a importância deste partido na articulação, mobilização e organização de todas as lutas do passado recente, em especial, de 2014 até aqui. Sim, é verdade que nos utilizamos da internet como meio de disputa das ideias, propagação do marxismo-leninismo, defesa das experiências socialistas e meio de agitação contra o fascismo, a conciliação e a traição de classe, e não há nenhum problema nisso (idiota seríamos se não o fizéssemos!). Mas, isso está longe de resumir nossa luta e, se nossas ideias ecoam, convencem e mobilizam as pessoas, não é porque são palavras “webrevolucionárias”, mas porque as ideias revolucionárias são explicações e soluções práticas para os problemas reais.

Conciliação como “realpolitik”

Ao se tentar justificar “racionalmente” os ataques à militância comunista, seus interlocutores defendem que a aliança com a direita golpista, representante direta e inequívoca da mesma burguesia que apoia a política econômica de Paulo Guedes, é a única possibilidade de “vencer o fascismo”. A “grande política”, para usar o termo do intelectual social-democrata Elias Jabbour, significa “diálogo” e concessões ao inimigo responsável pela tragédia que vivemos. Sob esta ótica, não só a defesa dos interesses da classe trabalhadora (como a redução da jornada de trabalho para 30h semanais ou a indispensável revogação do Teto do Gastos) são taxados de “esquerdismo”, como também o é a mera denúncia (sic!) desta aliança, que representa – objetivamente – uma traição aos interesses populares. Por exemplo, o candidato à vice-presidência e ex-governador de São Paulo não é mais pode ser chamado de ladrão de merenda golpista e repressor de professores (as): agora é companheiro Alckmin!

Inspirados pelo medo, se instrumentalizam do discurso terrorista para vender um peixe podre. Ainda que se alegue ser uma situação extraordinária, a conciliação não é novidade, menos ainda a repulsa ao comunismo. Dizer que “não é momento de falar em comunismo” como argumento para defender a agenda econômica dos grandes empresários já se tornou jargão da esquerda social-democrata, ainda que sua jovem militância adore se autoproclamar comunista no jantar em família.

No final das contas, tal comportamento mais parece uma projeção de sua própria infantilidade política, afogada em frustração e conformidade no lamaçal do imediato, do que qualquer crítica política consistente. Se alinhar a esta diretriz política é não enxergar além das aparências, do que está na superfície; é não identificar os interesses de classe por trás de cada posição política e, pior que isso, é não apreender o que – no imediato – está em potencial. Noutras palavras e mais concretamente: a fome exige ser saciada o mais rápido possível e as massas estão desorganizadas (imediato); a crise econômica dá condições à radicalização e organização das massas (potencial). Ainda que esta separação só possa ser feita abstratamente, o grande desafio está em articular, na prática política, o imediato ao potencial, sem ceder à tendência de absolutização do primeiro. É isso que, sob à luz do leninismo, se pode chamar de “grande política”.

A conciliação leva ao fascismo

“A cadela do fascismo está sempre no cio”, genialmente disse Bertold Brecht. O fascismo não é um fenômeno estranho, um raio em céu azul, um acaso. Pelo contrário, é um recurso utilizado por setores das classes dominantes quando sob determinadas condições. Para entender como o bolsonarismo cresceu e se consolidou como força política no Brasil é imprescindível analisar o que lhe precede.

Ainda que seja uma verdade amarga, o ciclo de governos petistas foi determinante para o florescimento do fascismo brasileiro. Isso não significa dizer que o bolsonarismo “é culpa” do governo petista. Não se trata de uma avaliação moral. Mas, desconsiderar o papel do Partido dos Trabalhadores (e, portanto, sua responsabilidade) para analisar a luta de classes é, além de desonestidade, idealismo. Alguns intelectuais social-democratas parecem ler o golpe de 2016 como um “corte ontológico” na História brasileira, de modo que, a partir dele, teria se constituído um país novo, descolado de sua trajetória até então. É o Brasil que era feliz e agora amarga em tristeza por causa de uma “elite” recalcada que interrompeu, subitamente, aquele próspero projeto de país. Nada mais distante da realidade.

À medida que renuncia à luta de massas como forma de disputa e barganha, o PT se volta absolutamente para o jogo político burguês e se consolida enquanto um partido da ordem, com a singularidade de ter forte apreço popular. Mesmo que a prática já demonstrasse sua inclinação aos interesses empresariais desde os primeiros anos de governo Lula, sua política econômica com certa “preocupação social” (ou melhor, de fomento do mercado interno por meio da liberação de crédito e aumento do salário mínimo), somada à origem sindical e popular do partido, sua estética e discurso, conforma o PT como um “caso de sucesso” da “social-democracia de esquerda” na América Latina – a despeito de, ao mesmo tempo, inertizar os instrumentos históricos da esquerda, que garantem à classe trabalhadora sua independência para lutar (sindicatos, associações etc.).

A cooptação de sindicatos, movimentos sociais e entidades de representação para dentro do aparato institucional burguês vêm acompanhada de dois outros fatores fundamentais para o florescimento posterior do fascismo, que são: a) o abandono do trabalho ideológico junto às massas; b) o distanciamento e alienação das bases dos processos de decisão política. Estas são as condições necessárias para se assegurar a tão falada “governabilidade” no Estado Burguês e assim o fez o Partido dos Trabalhadores. Este esvaecimento dos sindicatos, dentro de um contexto de precarização das relações de trabalho em que o sindicalismo é objetivamente dificultado, tem um resultado desastroso.

Desnorteada politicamente e diante de um súbito aumento do seu poder de consumo, a consciência da classe trabalhadora (incluindo seus setores médios) é terreno fértil para a ideologia burguesa crescer livremente. As conquistas feitas por cima em negociações diretas com a classe dominante fazem parecer que a luta política nas ruas já é desnecessária. Estas são algumas das condições subjetivas sob as quais se encontrava a maioria da população brasileira até o ponto-chave que abriu as portas do inferno para o fascismo.

Os tempos áureos do petismo se assentam em uma conjuntura internacional favorável, uma habilidosa política diplomática e uma política econômica interessante a vários setores da classe dominante, que não hesitaram em sustentar o governo petista até extrair o máximo que aquele ciclo de acumulação lhes provia. Ora, a consolidação de “gigantes nacionais” como, por exemplo, a Kroton-Anhanguera no setor educacional, se deu às custas das assim chamadas “políticas sociais”. No entanto, tão logo foi preciso um ajuste fiscal ainda mais austero para manter as altas taxas de lucro da classe dominante (o qual o PT não estava disposto a realizar nos termos exigidos pela burguesia), a conciliação petista se torna um problema. O novo ciclo de acumulação capitalista necessário para contornar os efeitos da crise de 2008, então, exigia uma ágil mudança na política econômica, a qual seria extremamente anti-popular: lei das terceirizações, reformas da previdência e trabalhista, Teto de Gastos etc. Sem a legitimidade popular que tinha o PT, a burguesia não teria outra opção se não apelar à força.

É num cenário de crescente e espontânea insatisfação popular derivado dos efeitos da crise e das medidas de austeridade (vide protestos de 2013) que se abre uma janela histórica, a qual pode ser aproveitada tanto por atores revolucionários, quanto por contrarrevolucionários, sendo o fascismo expressão máxima dos últimos. Com doses cavalares de propaganda anti-comunista e anti-petista, sob o discurso moral do combate à corrupção e já propensos a assimilar acriticamente tal conteúdo devido ao abandono da luta política e ideológica, expressivos setores da classe trabalhadora e, principalmente, seus setores médios se desiludem com a assim chamada “esquerda”. A indignação daí derivada é captada pela extrema-direita crescente no mundo todo.

Em síntese, sob o capitalismo, cujas crises são inevitáveis e o intervalo entre elas cada vez menor, se continuarem as ilusões de esquerda na possibilidade de sua reforma por meio de um pacto entre capitalistas e trabalhadores, também continuarão se maturando as condições que dão vida ao fascismo. Especificamente, no capitalismo dependente brasileiro, em que a burguesia nacional é umbilicalmente ligada ao capital internacional e por ele tutelado, romper à esquerda nas janelas históricas abertas pela crise jamais será uma opção para a classe dominante.

“Por esta razão, a margem de ação liberal do imperialismo e de seus aliados locais vai se estreitando cada vez mais em cada país. A opção fascista se transforma, então, em uma necessidade de sobrevivência do grande capital internacional e local.

[…]

Mesmo que o programa mínimo imediato da frente de forças antifascistas deva se limitar ao objetivo concreto de paralisar a repressão e derrubar seus executores, estes objetivos não são suficientes para despertar a confiança e iniciativa política das grandes massas. Elas devem ser advertidas de que a destruição efetiva do fascismo só se alcança levando até as últimas consequências a luta contra o imperialismo, o latifúndio, os monopólios e iniciando a construção de uma sociedade socialista” [1]

Quem, hoje, pretende agir como bombeiro da luta de classes propondo uma política de estabilização burguesa da crise, por meio de uma nova rodada de conciliação entre os interesses populares e do capital, no final das contas, consciente ou não, combate o incêndio com gasolina. A crise inevitavelmente voltará e, como já falhou, também falhará a nova tentativa de pacto entre as classes exploradora e explorada, por mais inclinado à direita que tenda a ser dessa vez. Nesse sentido, o combate ao comunismo, protagonizado por setores da “esquerda”, é nada mais que trabalho voluntário à classe dominante, que não hesitará em apoiar uma nova alternativa fascista tão logo isso seja necessário para manter suas altas taxas de lucro.

A alternativa à conciliação e o necessário trabalho ideológico

Sim, a revolução não acontecerá amanhã. Mas tampouco acontecerá se continuarmos a alimentar ilusões com nossos inimigos, menos ainda se não houver qualquer contraponto a isso. Por mais árduo que seja, o trabalho empenhado pela militância comunista para denunciar a farsa da democracia burguesa, a conciliação e a traição aos interesses populares; para demonstrar teórica e praticamente que este caminho é o que pavimenta a estrada para o fascismo; e para agir com independência, defender um programa radical e a revolução socialista nesta difícil conjuntura – únicas formas de acabar definitivamente com as mazelas do capitalismo –, se impõe como uma necessidade indispensável para construir o caminho alternativo à barbárie que rumamos.

Quem trata o socialismo-comunismo como um sonho utópico e distante não são os comunistas, mas exatamente seus adversários no campo da esquerda, de quem são alvos de ataques. Quem trata a revolução com seriedade, como a alternativa possível e necessária para acabar de uma vez por todas com a fome, a miséria, a opressão e o intenso adoecimento psicológico, não espera que ela aconteça amanhã, mas trabalha intensamente para construir suas condições hoje.

Se aqueles que pretendem uma transformação radical da sociedade e o respectivo partido que se pretende revolucionário não trilharem o próprio caminho, com os olhos fixados no horizonte e os pés no chão, sem ceder à tentação dos caminhos mais fáceis (porque são estes que geralmente guardam as piores armadilhas), jamais darão passos em direção ao seu objetivo e, pelo contrário, andarão em círculos, de modo a melhor se afundar na lama do imediato. Pode-se ter certeza de que esta é a posição mais favorável à classe dominante na guerra contra os trabalhadores.

São tempos de coragem, ousadia, responsabilidade, consequência e audácia. Não sucumbir ao medo e ao terror, manter o coração quente e a mente fria para melhor se movimentar politicamente nesta conjuntura é essencial. Tanto mais a esquerda reformista ataca a militância comunista, mais esta se prova um obstáculo ao triunfo dos trabalhadores e à realização de seus interesses; mais esta se aproxima dos inimigos e se mostra como um adversário em nossas próprias trincheiras. Por fim, isso não significa que comunistas devem ignorar quaisquer críticas que recebam e nunca se aliar com estes setores da esquerda. Muito pelo contrário:

“A tática acertada dos comunistas deve consistir em utilizar essas vacilações e de modo algum desprezá-las; para utilizá-las é necessário fazer concessões aos elementos que se inclinam para o proletariado – no caso e na medida exatos em que o fazem – e, ao mesmo tempo, lutar contra os elementos que se inclinam para a burguesia. Por seguirmos uma tática acertada, o menchevismo foi se decompondo e se decompõe cada vez mais em nosso país; essa tática foi isolando os chefes obstinados no oportunismo e trazendo para o nosso campo os melhores operários, os melhores elementos da democracia pequeno-burguesa”[2]

** Theo Dalla é militante do Partido Comunista Brasileiro e da União da Juventude Comunista desde 2016, estuda jornalismo na UFRGS e já atuou no movimento sindical e estudantil.
[1] Socialismo ou Fascismo: o novo caráter da dependência e o dilema latino-americano. Por Theotonio dos Santos. Editora Insular. PÁGINA 96.
[2] Esquerdismo: doença infantil do comunismo. Por Vladimir Lenin. Editora Expressão Popular. PÁGINA 116.

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