Prelúdio a um samba; prelúdio a um rap

Por João Marcos Duarte

Enquanto temos sambas que são cantados, outros, como certos raps, são escritos e contados em forma de livro, são crônicas em prosa. Geralmente esses pequenos lampejos da vida se dão por situações as mais diversas, tendo em comum quase todas, o fato de passarem ao largo das instituições de saúde.

Acho que você não entendeu

Meus meninos são o que você teceu.

Criolo

A frase seguinte a esses dois versos do samba em epígrafe acrescenta: “Ei, resistência ao mundo que Deus deu”. É disso que se trata. A primeira frase dessa poesia inicia com o dizer de um cínico espantado com a situação atual onde, num rompante de remorso, autocomiseração e autoritarismo, brada: “Eu não aceito essa indisciplina”. É essa a situação na qual nos encontramos. Interessante perceber que nosso rapper-sambista, em seus outros álbuns vinha cada vez mais rapper – o número de raps vai aumentando de acordo com os álbuns, de modo que o penúltimo (Ainda há tempo, SkyBlue Music, 2016) é o que mais tem raps e o mais contundente –, de uma hora para outra decide fazer um álbum só com sambas, de todos tipos, justo no momento em que a terra arrasada na qual nos encontramos e o lodo político e social desse nosso mundo já estava escancarado para todo aquele que quisesse (e para quem não quisesse também) ver e ouvir em alto e bom som. Talvez isso seja por conta do potencial crítico de cantar e contar a sociedade, inerente ao estilo de música samba e aos seus compositores e intérpretes, desde a aurora do século XX; no início se opondo ao trabalho (até então escravo), pela ausência dele e o elogio da vadiagem, depois pela valorização da população que mora na favela e hoje em dia, cantando as mazelas que nos assolam – não estamos falando aqui daqueles completamente integrados pela indústria cultural, apesar da ciência da tensão entre indústria e arte que existe desde o início da modernidade.

Enquanto temos sambas que são cantados, outros, como certos raps, são escritos e contados em forma de livro, são crônicas em prosa. Geralmente esses pequenos lampejos da vida se dão por situações as mais diversas, tendo em comum quase todas, o fato de passarem ao largo das instituições de saúde. É um lampejo que nos causa espanto e é digno de nota quando nos deparamos com um samba-enredo que tem por objeto o dia a dia dos profissionais de saúde: é o caso do samba-enredo em forma de livro “Pacientes que curam – o cotidiano de uma médica do SUS” (2ª edição. São Paulo: Brasiliense, 2021), de Júlia Rocha, nossa sambista-médica (ou médica sambista) radical, como ela mesma diz. Poderíamos dizer também que é o primeiro tratado materialista de saúde – saúde coletiva, como não poderia deixar de ser. Ocorre que quando o samba nasceu, cantava uma sociedade que ainda tinha a chance histórica de superação e que, por uma escolha de nossa burguesia que quis manter sua posição de sócia-menor no mundo em que vivemos (leia-se: capitalismo global), foi deixada de lado. Nossa Autora canta o Brasil-ornitorrinco: um país de condição subalterna, onde reinam as “necessidades presentes e sempre antissociais do capital”, no dizer de Roberto Schwarz, prefaciando o ensaio “O ornitorrinco” de Chico de Oliveira. Este último mostra que, no lugar da explicação de que no Brasil, outrora subdesenvolvido, conviveriam juntos o avanço e o atraso, a verdade é o contrário: aqui o avanço (da burguesia e do capital) se dá pelo atraso. Ainda nas palavras de Schwarz, “os meninos vendendo alho e flanela nos cruzamentos com semáforo” e hoje trabalhando de forma precária e desumana nos aplicativos, levando e trazendo tudo o que lhes for demandado, na melhor das hipóteses, de carro ou moto, na pior, de bicicleta ou a pé,  “não são a prova do atraso do país, mas de sua forma atroz de modernização” . Em outras palavras, esse é o Brasil iniciado pelo ex-sociólogo, ex-presidente e sempiterno candidato ao posto – digo isso parafraseando nosso Chico – e levado a cabo pelo Lulismo (ele mesmo outra desistência histórica, inclusive com nova classe dominante, como nos relata o ensaio-diagnóstico precioso, a ser averiguada em seu devido tempo).

Ainda nessa toada, depois da derrota de 2013, do impeachment de 2016 e da eleição de Bolsonaro – que segundo meu avô, homem, preto, nordestino, pobre e cristão, é o único que nesse mundo que está em franco declínio (todos sabem disso), “tem a coragem de dizer que o Brasil, nosso país, está acima de tudo e que Deus está acima de todos” – Paulo Arantes vai chegar à conclusão de que o bolsonarismo não é a antítese do Lulismo, mas seu avesso, que vinha sendo, desde a redemocratização, cantado em alto e bom som por qualquer um que tivesse contato e vivesse na periferia, mas que não foi ouvido por razões que já sabemos. A contraprova disso é o fato de que é preciso estar consciente de que muitas pessoas que votariam em Lula, caso ele fosse candidato, votaram em Bolsonaro. O candidato-professor não virou a eleição apenas por ineficiência ou falta de tempo da estratégia #viravoto, aos 45 do segundo tempo quando já estava 7×1, que apostava na “falta de consciência” dos “pobres de direita” – essa pecha, o maior dístico da derrota acachapante da esquerda do pacto democrático-popular. Interessante observar que muitas das histórias lidas em “Pacientes que curam”, se não a maioria delas, foram vividas nos anos pré-2019.

O livro em questão é uma coletânea de pequenas crônicas que contam o dia a dia de uma médica que trabalha no Sistema Único de Saúde (SUS) na periferia de Belo Horizonte, manual básico para todo aquele que um dia quer fazer o juramento de Hipócrates. É com esses fatos brutos que a Autora nos coloca de modo prosaico, profundo e delicado a realidade triste e iníqua – para dizer com nossa tradição crítica que vem desde Machado de Assis – do Brasil que ontem e hoje são recheadas de desistências histórias. Essas crônicas em coletânea nos dão a pensar algumas coisas que se fazem muito importantes em nossos dias: arte, política, saúde e camaradagem.

Com seu ritmo e sua cadência específica, de alguém que vai sendo curada aos poucos por seus pacientes – curada da distância abissal que é colocada entre o médico interventor e a criatura-cobaia que está lá para ser medicada e administrada em sua vulnerabilidade – “Pacientes que curam” é um verdadeiro épico pela maneira como dispõe o que vai falar e como, pela síntese das formulações e repetições de situações, temas e decisões, nos faz perceber, de um lado, como é a sociedade em que vivemos e, de outro lado, as conexões que, a partir do que está escrito, podem ser feitas com nossa própria realidade e nosso próprio repertório. Note-se que ao longo do percurso e da progressão das crônicas, assim como sua autora, elas vão se radicalizando; as crônicas vão aos poucos aumentando de tamanho; sua complexidade vai se dando ao longo do livro, um pouco porque vai passando o deslumbramento com a linda prosa da médica, um pouco porque percebemos que seu próprio deslumbramento vai se tornando consciência, um pouco porque ao longo do livro, com a repetição dos temas (como já colocamos), eles por si só vão se aprofundando, se interligando e dando robustez a esse diagnóstico social no qual os deserdados da terra brasileira se encontram.

O radicalismo é tão aprofundado que um de seus pontos altos é o “meninos mimados não podem reger a nação” de nossa sambista-médica, que diz a uma conhecida sua, a realidade em que ela (a conhecida) vive, tendo a possibilidade de deixar de viver o mundo para passar em um concurso e que sua ilustração na verdade era o pensamento da dominação piedosa e cínica que vimos mais acima – a esse respeito, vale conferir o relato cujo título é “Muito prazer, miséria” (pp.159-162).

A respeito do Épico que temos em mãos, em alguns momentos vemos a própria Autora usando essa estratégia com suas pacientes, com ênfase para, dentre outros, o relato 72 (pp. 289-92), em que, contando para essas pacientes suas próprias histórias a partir do “eu tenho uma conhecida que…”, ao invés do alienante “era uma vez”, quase sempre tirando um riso consciente que gera frutos. Bem ao estilo brechtiano, faz com que elas e eles adquiram a consciência da situação na qual se encontravam a partir desse estranhamento para, então, construírem soluções definitivas. Os retornos sempre relatados nos mostram que essa é uma estratégia que dá muito certo.

Vale ainda uma palavra a respeito da obra de literatura que temos em mãos. Por suas diversas qualidades, essa obra faz parte de um acervo maior que desde a redemocratização brasileira tem contado e cantado nossa realidade, mas que, diferente de muitas outras, não opta pelo cinismo covarde ou pela adesão ao jargão capitalista do “olha que realidade maldita, imagine quantos passaram pelo que eu passei e não sobreviveram, como eu, para estar aqui hoje” – esse, independente de quem o profere, o maior jargão do “ao vencedor as batatas” que sustenta o capitalismo que mata e encarcera cada vez mais e que, por cegueira ou qualquer outro motivo, está na boca de muitos artistas vindos da periferia que conseguiram seu lugar ao Sol, afinal “there is no alternative”. O presente livro, assim como outras obras e outros artistas, podem nos estar indicando que, assim como os novos movimentos políticos radicais de esquerda que vêm ganhando novos quadros, existem artistas, obras que também pensam e querem construir outra coisa completamente diferente do que temos hoje nesse nosso presentísmo de terra arrasada. Que esses artistas e suas obras criem um diálogo cada vez mais profícuo entre si e com seus quadros políticos, é uma centelha de esperança que se nos abre e que deve ser acompanhada com o máximo de interesse.

Interessante também que justamente ao ter acesso e escuta a todas as pessoas que vêm à sua sala de atendimentos, desde uma mãe triste porque seu filho não fala, a um homem esbelto que está por um fio, ao longo das páginas três temas vão se delineando de maneira não propositada, mas que nos saltam aos olhos por serem elas que envolvem as tramas individuais que, pelo arranjo do livro, se tornam coletivas: a fé,  a depressão e o trabalho.

Quanto ao primeiro tema, é vale ver como se desdobra: existe uma queixa, geralmente de uma paciente mulher, seja numa situação pessoal ou familiar. Ao longo da conversa, algo não encaixa. Com o aprofundamento surge um dogma, um credo. Eis aí um dos grandes impasses: religião e futebol não se discutem. Nesse livro religião é discutida sim. Não podemos nos esquecer em momento algum que o maior credo do brasileiro é o da fé cristã, em suas mais variadas denominações. Júlia, com seu cuidado, em momento algum julga essas pessoas ou sua fé. E em nenhum momento essas pessoas são tratadas como menos capazes ou encabrestadas – todos esses jargões de uma esquerda que esqueceu como se conversa com o diferente e precisa catalogá-lo para então o deixar de lado como alguém impossível de conversar. Muito pelo contrário, é por meio dessa própria fé que nossa médica faz com que essas pessoas pensem se realmente sua conduta condiz com seu credo. Muitas vezes dá certo, outras vezes é nossa médica que sai surpreendida com a consciência pessoal do que essas pessoas estão fazendo ao tomarem suas decisões. Perceber que a cidadania insurgente que se faz nas periferias é uma cidadania insurgente de pessoas cristãs e que isso faz toda a diferença é uma das grandes lições da presente obra. Se quisermos realmente conversar com o brasileiro, teremos que conversar com sua maioria, que é cristã. E conversar com essa maioria que é cristã é saber que eles têm o cérebro e a capacidade de raciocínio e convivência assim como nós, que eles têm sua rede de apoio e que estão ao lado uns dos outros para todos os momentos, que a maioria deles é gente que vive na miséria e que precisa rogar bênçãos celestiais – que por instinto de superioridade, alguns chamam de “teologia da prosperidade” – porque no mundo em que vivemos não há mais outra saída.

O outro lado dessa mesma moeda, que é também uma das coisas que mais aparecem em nosso pequeno tratado, é a bendita depressão, o mal do século. São essas mesmas pessoas que vêm e pedem um remédio para poderem voltar a sorrir. E em muitos casos essas pessoas vêm simplesmente para renovar sua receita. Nesse momento suas vidas têm um corte: uma médica, de repente, decidiu não pegar uma folha de receituário, dar uma canetada e uma carimbada. Ela sentou, pediu para que seu paciente (em sua maioria, sua paciente) sentasse e contasse o que estava acontecendo. E com muita paciência vamos percebendo que um comprimido pode mascarar e entorpecer uma família em ruínas, uma mulher que deixou suas escolhas, um senhor que já não pode mais nada porque sua vida simplesmente não existe mais – ou porque foi tirado de sua terra natal ou porque tudo o que construiu já é obsoleto no mundo 4.0. Destaque deve ser feito para o fato da rede de apoio estabelecida quando essas pessoas decidem falar: algumas delas voltam sem um medicamento sequer, mas sabem que terão ajuda psicológica, médica, de assistência social e das reabilitações várias (fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional etc.). É a partir disso que as mulheres violentadas muita vez conseguem a coragem para tirar o marido de casa ou para reajustar a configuração familiar, para voltarem a trabalhar e terem de volta a sua possibilidade de escolha, sempre condicionada socialmente, é claro. É a partir da volta dessa centelha de autonomia que é possível pensar em qualquer mudança.

Juntos, a religião e a depressão, ou melhor, a fé e o antidepressivo, são, na visão da socióloga Mariana Côrtes os novos aparatos de contensão social em regime de capitalismo neoliberal. Antes as principais estratégias eram a contensão ou eliminação física contra o que era tido por “diferença”. Essas coisas continuam, mas a novidade de nosso tempo é o “venha como é” que está na boca de toda a gente. O problema é que no modo de produção capitalista o “venha como é” precisa ser completamente esvaziado de seu conteúdo crítico e deve se subordinar aos imperativos dessa ordem. Nesse momento entram certo tipo de religiosidade – o neopentecostalismo, de um lado, e (acrescento aqui) a conformação das outras fés a essa mesma lógica, de outro – e o aumento dos diagnósticos psiquiátricos que, como todo tratado de medicina, demanda uma estratégia para lidar com o quadro patológico; qual é a nossa surpresa ao descobrir que essa solução médica se chama antidepressivo. Vale lembrar que o álcool e o cigarro estão nessa categoria de artigos de contensão social e que, por serem legalizados, são minimizados em seu efeito teratológico.

Nesse mesmo tema, alguns mais atentos vão perceber que a demanda por remédio, muitas vezes é dos próprios pacientes, e em alguns casos, sem receita pretérita. É sinal de que nesses novos tempos em que vivemos, de desintegração social, a cultura do especialista está ruindo há algum tempo. Hoje em dia, principalmente em nosso país, todo mundo tem o seu polaramine, a sua novalgina e essas coisas são inquestionáveis, e depois se espantam com o fato de que o fulano e o sicrano tomam remédio de verme para se curarem de um vírus. “Se der ruim, toma outro remédio”, é sempre esse o raciocínio. A única coisa é que uns têm seu kit-preventivo para dores de cabeça e outros para um vírus que contaminou o mundo inteiro. A cultura é a mesma e isso, a ser pesquisado em seu devido tempo, pode ser também um sintoma ou ter suas raízes em uma outrora cidadania insurgente que se entrincheirou, já que, de acordo com nossa médica, os diagnósticos precisos para “um tratamento correto e para a melhora das condições do paciente” só têm relevância “no centro das cidades, nos centros econômicos, no centro do capitalismo, no centro do estado, no centro do país. Nas periferias, pouco importa” (p.239). É cada um por si, Deus por todos e o Diabo que carregue o último.

Colocar em xeque o diabo e a fluoxetina são, nesse momento, ir contra a ordem estabelecida.

É justamente por colocar esses dois paradigmas em questão que aparece o plano de fundo de nossa sociabilidade: o trabalho. Trabalho esse, precarizado, esporádico, que acaba com tudo o que tem uma pessoa, bem como com sua família. Os casos de pessoas que não encontram mais emprego, não tiveram o que comer ou estão na rua não são poucos. Os que sobrevivem são os que têm seu comércio ou trabalham em aplicativos – esse o novo modo de trabalho precário, intermitente e sem nenhum direito, a cara do capitalismo brasileiro.

Ao contrário do rap em nova condição – essa nova condição, estudada por Daniela Vieira –, a solução encontrada por nossa sambista médica é a completa mudança de sociedade. Ela percebe que o que está matando as pessoas, exigindo que se mediquem ou que clamem ao Pai que está no céu por um emprego – quase todas elas negras, é sempre bom frisar – é o modo como a sociedade se produz e reproduz: por meio do trabalho. Até ontem, escravo, hoje, por meio do ordenado – não se pode mais falar em emprego, na verdade nunca se pôde, isso foi uma miragem; sempre precário, excludente, culpabilizador, racializado, com divisão social e sem nada; por aplicativo ou sem, mas estando à disposição do patrão, sem hora para comer, para dormir, para ver a família – essa a nossa modernização, não seu avesso.  E o pior de tudo: não se pode pedir para sair, não se pode desistir desse ritual de sofrimento que desgraça todos os dias milhões de pessoas – sejam as que trabalham fora de casa, em sua maioria homens, ou as mulheres que trabalham dentro de casa e que nem remuneradas são, muitas vezes sua paga é a humilhação e a violência física.

Há ainda uma semelhança que vale a pena ser relatada. Uma pessoa que me é muito cara – geralmente de quem vem os melhores conselhos – me indicou a leitura do presente livro (quando tive o primeiro contato com “Pacientes que curam”) e disse que haveria especialmente uma crônica que, na hora em que eu a lesse, saberia que essa pessoa tinha lembrado de mim. Não deu outra. Quando li, pensei: talvez seja essa. Liguei pra ela e veio a resposta quase que imediata: “é essa!”. Trata-se do relato de número 46 do volume, cujo título é “Dicas de saúde?” (pp.189-90). A coincidência vem porque é o que nós sempre conversamos e o que eu digo para meus pacientes – sou fonoaudiólogo: “para se ter uma vida, é preciso trabalhar no máximo oito horas por dia, dormir bem, se alimentar bem, se hidratar bem e fazer exercícios físicos”. O problema é que trabalhar oito horas por dia, para se ter tempo de estar junto com família e amigos e ter tempo para dormir; a possibilidade de não pedir bênçãos ao Eterno porque se tem condições materiais de consegui-las; ter a possibilidade de fazer atividades físicas; é uma questão de classe. Não é por outro motivo, então, que entre as muitas páginas, nossa médica fala sobre racismo, solidão da mulher negra, objetificação do corpo do homem negro, violência doméstica, medicalização, desemprego, estresse, negligência médica e familiar, fome, morte, mudança de geração, compaixão, beleza, cura, dentre tantas outras questões e calamidades.

Júlia Rocha sublinha isso em suas pouco mais de trezentas páginas. Eis aí a principal descoberta e limitação da medicina de família: há um limite grande da medicina na cura. A depressão e o pecado vêm pelas horas de trabalho – suas ou de um terceiro – que informam e conformam toda a rotina. Sem a possibilidade de fazer nada, senão trabalhar, a culpa e a irritação – para ficarmos nos termos de Silvia Viana – vão aumentando. Por isso os níveis de violência têm se tornado maiores. O diabo e a fluoxetina vêm para conter o mundo do trabalho que está em franca desintegração e, com ele, a sociedade burguesa. Em uma palavra: “Não existe dia das crianças na favela”.

Todavia, a visão diferenciada que têm os profissionais de saúde – geralmente apartados da discussão política – tem muito a acrescentar, como pode ser visto.

A posição privilegiada de Júlia enquanto médica de família é essencial para poder captar as coisas do jeito que elas são, de maneira singular, primeiro por sua sensibilidade, sua progressiva consciência, como mencionado, mas também enquanto médica: o profissional de saúde, em geral, e o médico, especificamente, tem a possibilidade de estar em contato com as pessoas em situação de sofrimento, por definição. Mesmo que seja um atleta que esteja com sua saúde plena – não é o caso de uma das crônicas narradas –, se ele está procurando um profissional da saúde, é porque não está conseguindo algo. Em nosso capitalismo de performance, não conseguir algo é a pior dor que se pode sentir – ainda mais nos dias de hoje em que não há mais emprego nem para quem consegue.

Ao invés de seguir os passos de seus muitos professores e colegas, a Autora espera, fica em silêncio, ouve tudo o que as pessoas que estão à sua frente e à sua volta têm a dizer. Ao invés de optar por uma canetada, como geralmente fazem as autoridades, uma pausa. Ao invés de aceitar o “senhora”, ela prefere o “você”– quando li, me lembrei de meu pai: quando as pessoas o chamam de “senhor”, ele diz “o Senhor está no Céu, me chame de você”. Ao invés do medicamento, o afeto, o carinho, o diálogo, a firmeza do confronto necessário, a lágrima quando a situação leva todos os seres humanos que têm coração ao mesmo desfecho, a contradição da imperfeição. É isso que faz de Júlia uma escritora, uma militante, uma médica que faz a diferença: sua humanidade. Humanidade essa que é o que vai constituir a Revolução. Júlia tem a consciência de que do jeito que está não é possível continuar. Como vimos acima, o capitalismo brasileiro se dá a partir da pobreza, da miséria, do trabalho escravo, precário e informal, logo, não há e nunca houve nenhum momento em que, por aqui, ele fosse civilizador. Logo, não há outra alternativa. Haverá muita poesia durante esse processo. Acima de tudo, haverá muita camaradagem.

Sempre foi muito conhecida a palavra “companheiro”. Correndo o risco de ser pedante, mas em momento algum tendo por base que palavras mudam realidades, acredito que nossa médica-sambista nos convida a trocar essa palavra por outra, que na verdade são duas: camarada ou parceiro. A relação de companheirismo é de quem acompanha. A relação de camaradagem e de parceria é a de alguéns que querem construir juntos. É o que Julia faz com seus pacientes, com seus colegas de equipe, que nos convida a fazer e que tem consciência de ser parte da solução. Não se muda o mundo com medicamento, não se muda o mundo com uma conversa a dois, não se muda a vida de uma pessoa sem mudar seus relacionamentos, se muda o mundo de mãos dadas com muitas pessoas. O consultório tem muitas maravilhas, mas também tem sua solidão, este um de seus maiores limites. É o conjunto de pessoas que juntas pensam e fazem o futuro, com muita seriedade, muita consciência e muita poesia, que abrem a porta da transformação do atual estado de coisas – a esse respeito, Jodi Jean tem muito a nos dizer com o seu “Camarada”.

É por essa razão que o médico Franz Fanon chega à conclusão de que não é possível tratar o indivíduo, simplesmente, é preciso tratar a sociedade. Clínica e política só são completas uma com a outra. É somente a partir dessa união que a possibilidade de realmente tratar as pessoas em todas as suas necessidades e sofrimentos, que direta ou indiretamente tem que ver com saúde, se abre. Por outros meios, Júlia Rocha chega às mesmas conclusões.

 

Notas:

[1] Júlia Rocha, Pacientes que curam – o cotidiano de uma médica do SUS, 2ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. p.261.; a partir de agora, as páginas do livro referenciadas ao longo desse escrito serão colocadas entre parênteses no corpo do texto.

[2] As citações encontram-se em: Roberto Schwarz. Prefácio com perguntas. In.: Francisco de Oliveira. Crítica à Razão Dualista/O Ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003. pp. 15 e 23.

[3]

Mariana Côrtes. O Diabo e a Fluoxetina: pentecostalismo e psiquiatria na gestão da diferença. Curitiba: Appris, 2017.

[4] Interessante observar o caráter premonitório de Francisco de Oliveira ao descrever a sinistra condição do trabalho no Brasil em que vivemos, muito tempo antes de existirem os aplicativos que sabemos. Quem lê a descrição, pode ter a impressão de que o texto foi escrito ontem; mais um indício de que o caos social não começou há cinco anos. A descrição encontra-se no já citado Ornitorrinco (Francisco de Oliveira. Op. Cit., pp. 136-140)

[5] Adalberto Cardoso. A construção da sociedade do trabalho no Brasil. Uma investigação sobre a persistência secular das desigualdades (2ª ed. revista e ampliada). Rio de Janeiro: Amazon, 2019.

[6] Silvia Viana. Rituais de sofrimento. São Paulo: Boitempo, 2013.

[7] Silvia Viana. Acabou! Argumentum (Vitória), v. 11, 2019. p. 17-30.

[8] Me refiro à frase repetida muitas vezes na faixa “12 de Outubro” do Álbum “Versos Sangrentos” da Facção Central. Todas as faixas dessa coletânea são o livro de Julia Rocha com outras palavras, mas muitas vezes deixado de lado, pois o grupo não aderiu à indústria cultural como o Rap em nova condição, até hoje carregando o conteúdo crítico desse estilo musical e cantando a favela durante todo o Brasil Ornitorrinco descrito em termos de crítica da economia política por Francisco de Oliveira. 

 

 

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