Mas as luzes ficaram acesas?

Por Christian Parenti (texto de Outubro de 2012), via, Le Monde, traduzido por Redyorkie e revisado por Otávio Losada.

O que será do Afeganistão, quando as tropas da OTAN se retirarem? Precisamos entender a história do país no século XX, que, além de não ser como achávamos que era, subestima a cisão interna entre modernizadores urbanos e camponeses profundamente conservadores.

De vez em quando, o retrato de um homem de rosto rotundo, olhar severo, com bigode e cabelos escuros pode ser visto em casas de chá e barraquinhas de rua em Cabul. Trata-se de Muhammad Najibullah, o último presidente do Afeganistão comunista, que ingressou no Partido Democrático Popular do Afeganistão (PDPA) no final dos anos 1960, esteve à frente da altamente organizada polícia secreta do Afeganistão, a KHAD, e, por fim, tornou-se presidente em 1986. Depois da retirada soviética do Afeganistão, Najibullah permaneceu no poder por mais três anos. Em 1996, ele acaba sendo morto por combatentes do Talibã.

Quando perguntei a afegãos em Cabul sobre os pôsteres e cartões postais de Najibullah, suas respostas variavam de “Ele foi um presidente forte: tínhamos um exército forte na época” a “Tudo funcionava direito, e Cabul era limpa.” Um proprietário de uma casa de chá disse simplesmente: “Najib lutou contra o Paquistão.” Ele é lembrado não tanto como um socialista – um termo vago para muitos no Afeganistão –, mas como um modernizador e patriota.

Conhecer a respeito da experiência soviética no Afeganistão ajuda a entender o status – de ícone menor – de Najibullah. O interesse dos soviéticos na região precede a Guerra Fria. Desde o início da década de 1920, eles lutaram contra rebeldes muçulmanos em suas áreas fronteiriças da Ásia Central. Uma década mais tarde, com a ajuda do exército real afegão, conseguiram derrotar esses rebeldes, que eram conhecidos como Basmachi (bandidos). A estabilidade do Afeganistão era vista como fundamental para a segurança da Ásia Central Soviética. A partir do início da década de 1950, o Afeganistão foi um dos quatro principais destinatários de ajuda soviética. Moscou enviou engenheiros ao país e convidou milhares de estudantes, técnicos e oficiais das forças armadas afegãs para receberem treinamento na Rússia.

Nos últimos anos da década de 1950, os EUA também haviam começado a investir no Afeganistão, desencadeando uma competição entre as superpotências baseada na ajuda ao país. A Autoridade do Vale de Helmand, uma entidade parecida com a Autoridade do Vale do Tennessee, criada para represar o rio Helmand e fornecer energia hidroelétrica e irrigação para regiões desérticas do sul, foi uma iniciativa estadunidense. O túnel do Passo de Salang, um dos mais elevados do mundo, que conecta o norte e o sul do Afeganistão, foi um projeto russo. Ambas as superpotências construíram partes do sistema rodoviário do país. A infraestrutura do aeroporto de Cabul foi edificada pelos russos; sua eletrônica, comunicações e radar foram importados pelos EUA.

Talvez de forma contraintuitiva, alguns oficiais das forças armadas que haviam sido treinados na URSS tornaram-se os primeiros líderes dos mujahidin: um deles, Ishmail Khan, iniciou uma rebelião em Herat em 1979. Por outro lado, alguns dos intelectuais treinados pelos EUA tornaram-se comunistas e membros do governo, como o primeiro ministro, Hafizullah Amin.

Um golpe anterior

O golpe comunista de 1978 foi o resultado indireto de um golpe anterior que havia causado uma fome no país. Desde 1969, durante vários anos, o Afeganistão sofreu com fomes e secas terríveis. Em 1973, enquanto as pessoas morriam de fome na província de Ghor, na porção central do Afeganistão, o general Muhammad Daoud liderou um golpe contra seu primo, o rei Mohammed Zahir Shah, abolindo a monarquia e criando um governo republicano tendo o próprio Daoud à frente como presidente. O rei havia marginalizado o anteriormente poderoso Daoud, além de não fazer nada para combater a fome.

Tão logo assumiu o controle do Afeganistão, Daoud implementou o que então era considerado um conjunto padrão de políticas econômicas, usando planejamento estatal e investimentos, a fim de desenvolver um setor industrial privado e mercados internos. Ele tratou seus inimigos políticos – os mutuamente antagônicos muçulmanos e comunistas – com um misto de cooptação e repressão. Mas a crescente repressão levou muçulmanos, como o tadjique Ahmed Shah Massoud e o pachtun Gulbuddin Hekmatyar, a um exílio armado no Paquistão.

A repressão também deu origem ao sangrento golpe comunista de 1978. Como observou Jonathan Steele,[i] essa foi “uma iniciativa precipitadamente improvisada”, resultado do assassinato de um membro graduado e venerável do PDPA chamado Mir Akbar Khyber. Um enorme protesto pelos apoiadores do partido levou a uma batida policial. Temendo um extermínio em massa,[ii] oficiais comunistas nas forças armadas atacaram o palácio presidencial, assassinaram Daoud e tomaram o poder.

Oficiais soviéticos, inclusive aqueles na estação da KGB em Cabul, aparentemente foram pegos de surpresa e estavam “visivelmente desconfortáveis com o ocorrido”, escreveu Rodric Braithwaite em Afgantsy: the Russians in Afghanistan,1979-89. Para eles, o Afeganistão não estava pronto para o socialismo, nem o PDPA preparado para governar. Essencialmente, o PDPA era composto por duas facções diametralmente opostas. A maior e mais radical delas, a Khalq (“Nação”), havia dado o golpe e era apoiada pela população que falava o pachtun e que havia se mudado recentemente para as cidades em busca de trabalho e educação. A menor, e mais moderada, a Parcham (“Estandarte”), tinha por base as classes médias urbanas mais estabelecidas e que se comunicavam em dari.

O início do governo Khalq foi violento. Quarenta dos aliados políticos e generais de Daoud, inclusive dois ex-primeiros-ministros, foram sumariamente executados. Entre os mortos, encarcerados ou desaparecidos estavam muçulmanos, maoístas e até mesmo membros da ala Parcham do PDPA. À medida que a violência aumentava, os soviéticos ficavam cada vez mais preocupados. O governo Khalq, porém, promulgou uma série de programas e legislações progressistas que proibiam o casamento infantil, reduziu o preço do dote, cancelou hipotecas rurais, lançou campanhas de alfabetização para homens e mulheres (embora cada grupo fosse ensinado separadamente) e instituiu a reforma agrária. Apesar de bem-intencionados, muitos desses esforços foram mal administrados e uma reação adversa rapidamente se seguiu.

“Inicialmente, os camponeses estavam felizes”

Uma antiga autoridade comunista, Saleh Muhammad Zeary, que Steele encontrou em um humilde prédio próximo ao Aeroporto de Heathrow em Londres, explicou a resistência da seguinte maneira: “Inicialmente, os camponeses estavam felizes, mas quando ouviram que éramos comunistas, a coisa mudou de figura. O mundo todo ficou contra nós. Eles diziam que não acreditávamos no Islã – e não estavam errados, pois viam que não rezávamos. Liberamos as mulheres de pagar dote, e eles disseram que acreditávamos em amor livre.” Zeary ficou em Cabul até que os mujahidin tomaram o poder em 1992. Quando esses soldados de deus assassinaram sua esposa e dois de seus filhos, ele finalmente fugiu.

Outra ex-autoridade do PDPA contou a Steele: “[As lideranças partidárias] no poder queriam erradicar o analfabetismo em cinco anos. Era ridículo. A reforma agrária não era popular. Eles promulgavam os assim chamados decretos revolucionários, e queriam implementá-los a força. A sociedade não estava pronta. As pessoas não haviam sido consultadas.” Steele observa que esses antigos veteranos do PDPA, apesar de anos de acesso a vastas somas de dinheiro público, não aparentavam ter desviado esses recursos, se é que roubaram alguma coisa.

As reformas concebidas impetuosamente pelo PDPA foram vítimas de uma antiga cisão entre cidade e campo na sociedade afegã. Os jovens idealistas urbanos e educados não entendiam o mundo rural que eles buscavam remodelar, e o mundo dos vilarejos com construções de barro não compreendia a burocracia urbana. Que as dimensões culturais e sociais das reformas ameaçavam os privilégios dos mulás tradicionais, dos maliks (líderes das aldeias) e dos grandes proprietários de terra não surpreende. O que pode causar confusão é que os aspectos economicamente progressistas do programa também eram amplamente rejeitados pelo campesinato altamente religioso.

Embora pobre e desigual, o Afeganistão não era marcado pela extrema concentração agrária típica da China ou do México pré-revolucionários. Conforme explica Steele, os camponeses, de diversas maneiras, estavam “vinculados a seus proprietários de terra por laços familiares, religiosos e clânicos e não estavam dispostos a contrariar a autoridade deles”. A sociedade rural, sempre com algum grau de autonomia em relação a Cabul e sentindo-se profundamente ameaçada pelas reformas, passou cada vez mais a aderir à resistência armada, vinculando-se às facções muçulmanas que haviam fugido para o Paquistão durante a repressão de Daoud.

Alguns erros técnicos ajudaram a piorar ainda mais a situação do PDPA. Em sua pressa, os comunistas de Cabul redistribuíram a terra, mas não direitos sobre a água, uma falha que revelou sua ignorância a respeito da agricultura local. Eles aboliram o opressivo sistema de empréstimo de dinheiro baseado no bazar,[iii] mas não instituíram um programa alternativo de crédito, a fim de ajudar agricultores pobres no plantio. Por sua vez, os soviéticos aconselharam repetidamente Cabul a abandonar ou postergar as reformas mais radicais.

Os comunistas não foram os primeiros modernizadores afegãos a encarar uma reação rural. O Príncipe Vermelho, Amanullah Khan, que expulsou os britânicos em 1919, foi deposto dez anos mais tarde por uma rebelião tribal que se opunha a seus esforços de modernização inspirados na Turquia. Ele havia instituído uma reforma agrária limitada, dado o direito de voto para as mulheres e iniciado a educação de meninas. As elites rurais aceitariam boas estradas, mas não impostos para pagar por elas; as massas rurais aceitariam melhorias agrícolas e acesso a educação, mas não um assalto ao patriarcado. Cinquenta anos mais tarde, o PDPA enfrentou o mesmo tipo de rebelião religiosa, e, para suprimi-la, as autoridades comunistas começaram a fazer demonstrações de piedade pública, rezando e visitando mesquitas. Mas foi muito pouco e tarde demais. Em março de 1979, a crise explodiu em Herat, uma importante cidade na fronteira iraniana, onde ocorreu um enorme motim militar liderado por oficiais muçulmanos. Sem dúvida, o desejo de se rebelar entre oficiais religiosos foi estimulado por eventos no país vizinho: o xá havia fugido do Irã, e Khomeini havia retornado a Teerã apenas um mês antes.

Menos violento do que o esperado

A pesquisa de Braithwaite indica que a rebelião e subsequente repressão militar – que contou com o auxílio de pilotos soviéticos – não foram tão sangrentos quanto frequentemente se supõe: “Embora a imprensa e alguns historiadores ocidentais continuem a insistir que até cem cidadãos soviéticos foram massacrados, o número total de vítimas soviéticas em Herat parece não ter sido maior que três.” Além disso, a cidade não sofreu um bombardeio de saturação que poderia ter resultado em milhares de vítimas.

Depois de Herat, outras guarnições se amotinaram, e os soviéticos, além de enviar mais consultores ao Afeganistão, começaram a fazer planos de contingência para o empenho total de forças terrestres. Já nesse verão, os EUA haviam começado a canalizar dinheiro e armamentos para os rebeldes mujahidins, que estavam atacando as forças governamentais e a infraestrutura pública desde o Paquistão. Enquanto isso, a disputa dentro do PDPA piorou, com diferenças ideológicas e pessoais precipitando conflitos entre Khalqs e Parchams e até mesmo casos de violência entre Khalqs. Em setembro de 1979, o presidente Noor Muhammad Taraki foi amarrado a uma cama e sufocado com um travesseiro: a ordem para o assassinato veio de seu rival e companheiro Khalq, o primeiro ministro Hafizullah Amin.

A liderança soviética via Taraki como a alternativa mais flexível, e seu assassinato os deixou furiosos. Os níveis de paranoia no Kremlin também estavam aumentando. Durante os anos 1960, Amin havia se preparado para um doutorado na Universidade de Columbia, onde foi líder da união de estudantes afegãos, e havia rumores de que estaria colaborando com a CIA. Steele observa que Amin havia admitido publicamente ter recebido dinheiro da agência antes da revolução. Braithwaite relata que até mesmo o embaixador dos EUA, Adolph Dubs, depois de várias reuniões com Amin, perguntou à CIA se ele era um contato. Mais provavelmente, Amin estava seguindo o caminho familiar a todos os líderes afegãos: administrar um estado-tampão e navegar entre as grandes potências.

Pedido de intervenção soviética

Durante o ano da crise de 1979, o governo comunista do Afeganistão fez 13 pedidos de intervenção militar soviética. Moscou, por sua vez, deu todas as razões corretas para não mobilizar tropas terrestres. “Estudamos cuidadosamente todos os aspectos dessa ação e chegamos à conclusão de que, se as nossas tropas fossem introduzidas, a situação no seu país não apenas não iria melhorar, como pioraria,” explicou uma autoridade soviética. Porém, o assassinato de Taraki parece ter mudado a opinião de Moscou.

O 40º Exército foi enviado para o sul e, quando finalmente chegou em peso ao Afeganistão, no final de dezembro de 1979, sua missão não era auxiliar Amin, mas assassiná-lo. Forças Especiais soviéticas atacaram o palácio presidencial e, em uma batalha prolongada e sangrenta, cômodo a cômodo, elas finalmente encurralaram e mataram o presidente. O líder substituto escolhido pelos soviéticos foi Babrak Karmal, da ala Parcham moderada do PDPA. Mas Karmal era temperamental, errático e paranoico, e o fato de beber em excesso apenas aumentava sua incompetência (se Karmal parece lembrar Hamid Karzai, sobre quem havia rumores de que usava narcóticos, este é apenas um dos muitos paralelos que o leitor encontrará no livro de Braithwaite). Inicialmente, tanto Moscou quanto Washington acreditavam que a intervenção duraria apenas seis meses, e que a população afegã, ou pelo menos sua porção urbana, daria boas-vindas aos russos e ao fim da insanidade de Amin.

Junto com os soldados, os soviéticos enviaram uma onda de técnicos e conselheiros civis idealistas. Mas Karmal provou-se incapaz de conquistar a aliança dos muçulmanos do interior. Por isso, a capacidade do estado afegão permaneceu limitada. Para tornar as coisas ainda piores, desde julho de 1979, os EUA vinham armando as sete facções mujahidin. A considerável ajuda militar secreta fornecida pelos EUA foi iniciada pela CIA, generosamente financiada pelo governo saudita e invejosamente administrada pelo cada vez mais poderoso Interserviços de Inteligência paquistanês. Não demorou muito até que os russos se vissem atolados em uma guerra que levaria nove anos para terminar.

O objetivo real

Muitos soldados soviéticos realmente acreditavam em seu “dever internacional”, assim como voluntários das forças armadas estadunidenses hoje em dia, muitas vezes, veem sua guerra no Afeganistão como uma maneira de ajudar um país atrasado e confrontar uma genuína ameaça terrorista. E, como seus pares estadunidenses hoje em dia, em grande medida, os recrutas soviéticos no Afeganistão tinham raízes na classe trabalhadora das áreas rurais ou de cidades de pequeno porte. Homens (e algumas mulheres) de profissões liberais e de famílias conectadas ao partido nas grandes cidades da porção ocidental da Rússia estavam espalhados por unidades médicas, a KGB e a força aérea, mas raramente eram encontrados entre os convocados, que viviam na expectativa de ser atingidos por tiros enquanto acompanhavam comboios de suprimentos ou se posicionavam ao longo do topo de encostas desoladas. O grosso dos combates era travado por rapazes do interior e filhos de pequenas cidades industriais.

O objetivo real do 40º Exército era conquistar corações e mentes. Mas isso não iria acontecer. Quando as forças terrestres soviéticas e afegãs eram atacadas e não podiam se mover, a artilharia e o suporte aéreo eram chamados e, se os mujahidin estivessem atirando de um vilarejo, o vilarejo era bombardeado e destruído. Braithwaite rejeita todas as antigas farsas da Guerra Fria sobre os russos prepararem armadilhas disfarçadas de brinquedos ou usarem armas químicas. Ao contrário das matérias publicadas pela imprensa ocidental nos anos 1980, a brutalidade soviética contra civis, apesar de indesculpável, não era intencional, mas um efeito colateral previsível. Porém, a irracionalidade e as contradições da contrainsurgência eram ainda piores. Os soviéticos processaram centenas de seus soldados por crimes que iam de estupros e assassinatos ao uso de drogas, pequenos furtos e assédio moral (um problema persistente no exército russo, desde a época czarista até hoje). No entanto, eles não podiam nem iriam controlar os abusos cometidos pelo KHAD: cerca de 8.000 afegãos foram executados pelo governo do PDPA e milhares outros foram presos e sofreram maus-tratos.

Segundo Braithwaite, de modo geral, os afegãos classificam os russos como soldados melhores do que os estadunidenses, pelo simples fato de que eles eram menos cautelosos, menos protegidos e, de várias maneiras, culturalmente mais próximos dos costumes camponeses dos afegãos na Ásia Central. Quanto aos afgantsy[iv] que retornaram da guerra, alguns conseguiram se adaptar razoavelmente bem, mas outros, assombrados com o passado, lutaram contra o alcoolismo e a dependência de drogas, e os fisicamente mutilados viram-se emaranhados em disputas intermináveis com enormes burocracias médicas. De volta à URSS, os veteranos também descobriram que muitos de seus concidadãos estavam cada vez mais entediados com as notícias de uma guerra aparentemente inútil.

Em 1985, quando Gorbachev assume o poder, a liderança soviética estava cada vez mais empenhada em sair do Afeganistão. Uma campanha silenciosa, porém ampla e persistente, de cartas contrárias à guerra, organizada pelas famílias de soldados, veteranos e até mesmo de alguns oficiais da ativa, havia ajudado Moscou a chegar a essa conclusão inevitável. Enquanto na URSS a perestroika e a glasnost estavam sendo implementadas, no Afeganistão, o recém-nomeado Najibullah afastava-se cada vez mais do Marxismo-Leninismo em direção a algo mais parecido com um nacionalismo pragmático. Em 1988, Najibullah mudou o nome do PDPA para Watan (“Terra Natal”), e, ao final de seu governo, pensou até mesmo em oferecer a posição de ministro da defesa para o comandante mujahidin Ahmed Shah Massoud.

Essas mudanças, começando a partir da saída de Karmal e a ascensão de Najibullah, foram todas parte de uma política formal chamada “Reconciliação Nacional”. Um relato muito bom a respeito dos aspectos diplomáticos dessas últimas tentativas de estabilização é apresentado por Artemy Kalinovsky em A Long Goodbye.[v] “De 1985 a 1987”, observa Kalinovsky, “a política afegã de Moscou foi definida por um esforço para encerrar a guerra sem sustentar uma derrota. […] Gorbachev estava quase tão preocupado quanto seus antecessores com o estrago que uma saída precipitada poderia causar no prestígio soviético, especialmente entre seus parceiros no Terceiro Mundo. No entanto, Gorbachev também estava empenhado em terminar a guerra e contava com o apoio da maioria do Politburo. Isso significava buscar novas abordagens, a fim de desenvolver um regime viável em Cabul que pudesse sobreviver à retirada das tropas soviéticas.”

Para funcionar, a Reconciliação Nacional necessitava da cooperação dos Estados Unidos, o principal patrono dos mujahidin. Kalinovsky dedica um capítulo inteiro às negociações entre a URSS e os EUA em relação ao Afeganistão. Infelizmente, para o Afeganistão e os soviéticos, a administração Reagan estava dividida entre os que estavam abertos a negociações (os “dealers”) e aqueles que queriam deixar os soviéticos sangrando (os “bleeders”). O Secretário de Estado George Shultz foi, em um determinado momento, um dos principais “dealers” e defendeu um acordo com os soviéticos: se o Exército Vermelho saísse do Afeganistão, os “dealers” acreditavam que os EUA deveriam cortar a ajuda aos mujahidin. Por outro lado, os “bleeders”, amplamente representados na CIA e no “lobby afegão” no Congresso, estavam atrás de mais sangue e insistiam que a ajuda aos mujahidin somente terminaria quando cessasse toda a ajuda ao governo Najibullah. No final, os “bleeders” venceram. Da perspectiva de Moscou e de Cabul, a posição do governo Reagan não era “nem um pouco cooperativa”.

Em fevereiro de 1989, o último tanque soviético cruzou a Ponte da Amizade sobre o rio Amu Darya, no norte do Afeganistão.[vi] Apesar disso, Moscou continuou oferecendo apoio material a Najibullah, e o governo afegão superou todas as expectativas. Em março de 1989, tropas afegãs, agora lutando sozinhas, repeliram um enorme cerco mujahidin em Jalalabad, na porção oriental de Nangarhar, não muito longe da fronteira com o Paquistão. Caso os insurgentes tivessem tomado a cidade, Cabul teria sido o próximo alvo. Depois disso, apesar de suas táticas brilhantes no campo de batalha, as sete facções mujahidins permaneceram fragmentadas e estrategicamente desarticuladas.

Segundo Braithwaite, o então Ministro das Relações Exteriores da União Soviética, Eduard Shevardnadze – não querendo ser o primeiro ocupante do cargo a presidir a pasta durante uma derrota – era o maior defensor de Najibullah, insistindo que, com um fluxo constante de combustíveis e armamentos, os afegãos poderiam lutar indefinidamente. De fato, Najibullah conseguiu permanecer à frente do país por mais três anos. Mas, quando Yeltsin tirou Gorbachev do poder e a URSS entrou em colapso, o apoio ao Afeganistão foi cortado.

Mais um mito

A derrota soviética no Afeganistão não levou ao colapso da URSS, como, muitas vezes, se supõe. Foi exatamente o contrário. Conforme explicou a revista The Economist, “O sistema soviético soçobrou quando os principais líderes decidiram ‘monetizar’ seus privilégios e os transformaram em propriedade.”[vii] Tão logo isso aconteceu, e Yeltsin tomou o poder, o regime de Najibullah desabou. Braithwaite explica que Yeltsin, embora ainda fosse apenas o líder da Rússia, havia entrado em negociações secretas com os mujahidin antes mesmo da queda de Gorbachev e da União Soviética. Assim que os suprimentos russos foram cortados, um dos principais generais de Najibullah, Rashid Dostum, desertou para o campo dos rebeldes. Em abril de 1992, Najibullah foi finalmente derrubado. Vários grupos de mujahidins (“guerreiros sagrados”) e fanáticos etnonacionalistas atacaram Cabul. Depois de um curto experimento em um governo conjunto, as facções voltaram a lutar entre si, enquanto os últimos membros do PDPA fugiram do país ou foram para a resistência.

Najibullah tentou escapar, mas os homens de Dostum bloquearam sua fuga, impedindo-o de chegar ao aeroporto. Ao longo dos quatro anos seguintes, Cabul mergulhou na barbárie, com as facções beligerantes de mujahidins trazendo escuridão real e metafórica: as lâmpadas que iluminavam as ruas e os cabos de força usados pelas linhas de ônibus elétricos foram roubados; os serviços públicos cessaram; a luta entre as facções destruiu metade da cidade; e aproximadamente 100.000 pessoas, a maioria delas civis, foram mortas. Enquanto isso, Najibullah permanecia escondido em um complexo da ONU. Quando o Taliban finalmente tomou a cidade, em 1996, eles capturaram o ex-presidente, que foi espancado, torturado, castrado e, finalmente, executado a tiros. Seu corpo foi arrastado pelas ruas e pendurado em um poste de iluminação.

Atualmente, forças da OTAN ocupam o Afeganistão. No entanto, algumas fotos de Najibullah ainda podem ser vistas em Cabul. Por quê? No passado, como agora, a guerra no Afeganistão não era simplesmente entre invasores e afegãos. Ela também era um conflito interno: entre as populações urbanas, que eram partidárias da modernização, até mesmo da modernização forçada, e os moradores do interior, que se opunham violentamente a qualquer mudança social. E os dois grupos se vincularam a poderosos aliados estrangeiros. Durante a Guerra Fria, os soviéticos apoiaram Cabul, ao passo que os EUA e o Paquistão apoiaram os rebeldes. Atualmente, por uma série de razões perversas, os EUA apoiam os aspirantes a construtores do Estado em Cabul (muitos dos quais eram as mesmas pessoas que trabalharam com Najibullah), ao passo que o Paquistão, aliado nominal e vassalo bem-financiado dos EUA, ainda apoia os rebeldes religiosos e tradicionalistas.

Há uma classe de afegãos urbanos para os quais a principal questão política sempre foi a seguinte: “Essa ideologia vem com eletricidade?” Essas são as pessoas que tentaram estender o domínio de Cabul sobre o interior e, desde a década de 1920, enfrentam uma oposição violenta. Houve uma época em que o veículo deles foi a monarquia constitucional. Depois, uma república presidencial, seguida pelo socialismo de tipo soviético e, por fim, pela tentativa desesperada de nacionalismo de Najibullah. Agora, vemos o experimento profundamente defeituoso da democracia liberal imposta pela OTAN. Desse modo, não surpreende que ex-comunistas ainda sejam modernizadores e possam ser encontrados espalhados pelas porções mais competentes daquilo que é nominalmente conhecido como o governo afegão.

É por isso que eles ainda penduram fotos do Dr. Najib em Cabul – porque, a despeito de todos os erros por ele cometidos, sua visão de mundo vinha com eletricidade. Mas, infelizmente, não será a guerra que vai trazê-la.

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[i] Em grande medida, este artigo se baseia em informações fornecidas por Rodric Braithwaite, embaixador britânico para a URSS (1988-1992), em Afgantsy: the Russians in Afghanistan, 1979-89, Oxford University Press, Oxford, 2011, e pelo jornalista do Guardian Jonathan Steele, em Ghosts of Afghanistan: the Haunted Battleground, Portobello Books, Londres, 2011. Citações desses autores são desses dois livros.

[ii] NT: O massacre na Indonésia (1965-1966), quando aproximadamente um milhão de comunistas e simpatizantes (ou suspeitos de serem membros ou simpatizantes do Partido Comunista Indonésio) foram assassinados após o golpe de Suharto, ainda era uma lembrança relativamente recente e talvez tenha tido alguma influência nessa decisão.

[iii] NT: Empréstimos de curto prazo a juros elevadíssimos. Ver: https://adst.org/wp-content/uploads/2013/12/Benedick-Richard-Elliott-1.pdf.

[iv] NT: termo russo usado para os soldados soviéticos que participaram da guerra do Afeganistão.

[v] A Long Goodbye: the Soviet Withdrawal from Afghanistan, Harvard University Press, 2011.

[vi] NT: A Ponte da Amizade ainda existe e está localizada na fronteira entre o Afeganistão e o Uzbequistão.

[vii]Russia: The long life of Homo sovieticus”, The Economist, Londres, 10 de dezembro de 2011.

* Christian Parenti é jornalista. Uma versão mais extensa deste artigo apareceu em The Nation, Nova York, 17 de abril de 2012.

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