A Realidade Concreta: David Harvey responde a John Smith

Por David Harvey, via Review of African Political Economy traduzido por Gabriel Oliveira

Esta é a terceira parte da série de debates que estamos publicando sobre o imperialismo que envolvem David Harvey e outros interlocutores. Os outros dois textos, em ordem, são O imperialismo ainda é um conceito relevante e David Harvey nega o imperialismo (uma réplica).

John Smith está perdido no deserto e morrendo de sede. Seu confiável sistema GPS o diz que há água fresca dez milhas em direção ao oriente. Porém, como ele acredita que por “do Oriente para o Ocidente” deve-se ler “do Sul para o Norte”, ele segue para o sul para nunca mais ser visto. Esta é, infelizmente, a qualidade do seu argumento contra mim.

O Oriente de que falo quando afirmo que a riqueza se deslocou do Ocidente para o Oriente nos últimos tempos é constituído pela China, agora a segunda maior economia do mundo (se a Europa não é considerada como uma única economia), acompanhada pelo Japão enquanto terceira maior economia. Inclua a Coréia do Sul, Taiwan e, com um pouco de licença geográfica, Singapura, e você terá um bloco de poder na economia mundial (que seguiu o chamado modelo “gansos voadores” de desenvolvimento capitalista) que representa rigorosamente um terço do PIB global (contraposto à América do Norte, que corresponde à somente um quarto da produção mundial). Se olharmos para trás e consideramos como o mundo estava organizado, digamos, em 1960, então a ascensão surpreendente do Leste Asiático como centro de poder da acumulação do capital global vai ser evidente.

Os chineses e japoneses possuem agora porções significativas da crescente dívida pública americana. Está ocorrendo também uma importante transformação por parte de cada economia nacional no Leste Asiático em busca de direcionar a quantidade massiva de capital excedente que está sendo acumulada dentro de suas fronteiras mediante ajustes espaciais [spatial fix]. O Japão começou a exportar capital no final dos anos 1960, a Coréia do Sul no final dos 1970, Taiwan no início dos 1980. E muito desse investimento foi para a América do Norte e Europa.

Agora é a vez da China. Um mapa traçando os investimentos externos chineses no ano 2000 era quase totalmente vazio. Agora, uma inundação desses investimentos está passando não somente ao longo da “Nova Rota da Seda”, entre a Ásia Central e Europa, mas também pelo leste da África, em particular, e pela América Latina (mais da metade do investimento externo direito no Equador provém da China). Quando a China convidou líderes do mundo todo a comparecer na conferência sobre a “Nova Rota da Seda” em maio de 2017, mais de quarenta líderes foram ouvir o anúncio do presidente Xi do que muitos ali viram como o início de uma nova ordem mundial na qual a China seria um (senão o) poder hegemônico. Isso significa que a China é a nova força imperialista?

Existem detalhes interessantes que são importantes para este cenário. Quando lemos relatos das terríveis condições de superexploração nas manufaturas do Sul global, por vezes descobrimos que são firmas taiwanesas ou sul-coreanas que estão envolvidas, mesmo quando o bem final vai para a Europa ou para os Estados Unidos. A sede por minerais e commodities agrícolas (a soja em particular) significa que as firmas chinesas também estão no centro de um extrativismo que está devastando as paisagens naturais ao redor do mundo (veja-se a América Latina). Uma olhada rápida na expropriação de terras ao longo da África mostra que companhias e fundos de investimento chineses estão bem na frente de qualquer um em suas aquisições. As duas maiores mineradoras operando no cinturão do cobre na Zâmbia são da Índia e da China.

Assim, o que a fixa, rígida teoria do imperialismo defendida por John Smith tem a dizer sobre tudo isso?

De acordo com John Smith, eu negligenciei a questão do imperialismo em Os limites do Capital. Segundo ele, eu a mencionei apenas uma vez. O índice remissivo registra vinte e quatro menções, e o último capítulo é intitulado “a dialética do imperialismo”. É perfeitamente verdade que ali eu considerei a concepção tradicional de imperialismo, derivada de Lênin (e gravada em rocha por gente como John Smith), inadequada para descrever as complexidades espaciais, interterritoriais, e as particularidades locais assumidas pelas formas de produção, realização e distribuição que estavam operando no mundo.

Sobre isso, eu fiquei depois intrigado em encontrar uma perspectiva semelhante em Giovanni Arrighi, que em The Geometry of Imperialism (escrito por volta da mesma época) abandona o conceito de imperialismo (ou pelo menos a geografia rígida das noções de centro e periferia utilizada na teoria dos sistemas-mundo) em favor de uma análise mais aberta e fluída das hegemonias mutáveis [shifting hemegomies] no sistema mundial. Nenhum de nós nega que o valor produzido em um lugar termina sendo apropriado em outro lugar, e que há um grau de viciosidade em tudo isso que é impressionante. No entanto, este é justamente o processo (e enfatizo aqui a relevância de entender como um “processo”) que buscamos mapear, analisar e teorizar o melhor que pudermos. Marx nos ensinou que o método do materialismo histórico não começa com conceitos e os impõe sobre à realidade, começa com a realidade concreta e busca descobrir os conceitos abstratos adequados àquela situação. Começar com conceitos, tal como faz John Smith, é assumir um idealismo grosseiro.

Portanto, com base no que está acontecendo na realidade concreta, eu prefiro trabalhar com uma teoria do desenvolvimento geográfico desigual, com novas divisões do trabalho, múltiplas e diferenciadas, com um entendimento das cadeias globais de mercadorias e dos ajustes espaciais [spatial fix], da produção dos espaços (e a urbanização em particular, um ponto central não trabalhado por Smith) e a construção e destruição de economias regionais no interior das quais uma certa “coerência estrutural” (ou “regime regional de valor”) pode se formar por um tempo, até que as poderosas forças da desvalorização e da acumulação por espoliação põem em movimento as forças da destruição criadora. Essas forças afetam não somente o que está acontecendo no Sul global, mas também o Norte que está se desindustrializando.

Eu tento analisar essas questões pelos primas das diferentes mobilidades geográficas do capital, trabalho, dinheiro e das finanças, e examinar o poder crescente dos rentistas e o equilíbrio variável do poder entres as distintas facções do capital (por exemplo, entre a produção e as finanças), e entre o capital e o trabalho. É isso que eu proponho no lugar da tosca e rígida teoria do imperialismo utilizada por John Smith. Não nego a imensa acumulação de poder monetário ocorrendo nas mãos de umas poucas corporações e famílias ricas ou as terríveis condições de vida às quais grande parte da população mundial está sujeita. Mas também não se imagine que as classes trabalhadores de Ohio e Pensilvânia estão vivendo no luxo. Nossa análise reivindica a importância da teoria do mais-valor relativo de Marx, que reconhece a possibilidade de melhora significativa dos padrões de vida dos trabalhadores mesmo que a taxa de sua exploração aumente para níveis dramáticos, impossíveis de serem alcançados pelo mais-valor absoluto apropriado nas instâncias mais empobrecidas da acumulação de capital que muitas vezes predominam no Sul global. Além do mais, como Marx apontou há muito tempo, as transferências de riqueza de uma parte para outra do mundo não beneficiam todo o país; elas são invariavelmente concentradas nas mãos das classes privilegiadas. Recentemente, nos Estados Unidos, o povo de Wall-Street e seus asseclas se deram muito bem, enquanto os antigos trabalhadores de Michigan e Ohio se deram bem mal.

Vamos dar uma olhada para o passado, sobre tudo isso. Nos anos 1960 setores privilegiados da classe trabalhadora eram amplamente protegidos dentro das fronteiras de seus estados nacionais no Norte global e podiam lutar pelo poder político em seu interior. Eles alcançaram estados de bem-estar social mediante a tática da social-democracia e embolsaram uma parte dos benefícios que vieram da produtividade crescente. A contraofensiva capitalista visou enfraquecer esse poder e rebaixar os salários ao encorajar a imigração. Os alemães buscaram imigrantes na Turquia, os franceses no Magrebe, os suecos na Iugoslávia, os britânicos nas suas antigas colônias, e os EUA reformaram suas leis de imigração em 1965 para se abrirem para todo o mundo. John Smith esquece que tudo isso foi subsidiado pelo Estado capitalista a pedido da classe capitalista. Mas esta solução não funcionou. Assim, dos anos 1970 em diante alguns (mas de forma alguma todos) capitais foram para onde as forças de trabalho eram mais baratas. Mas a globalização não poderia funcionar sem demolir as barreiras à troca de mercadorias e aos fluxos monetários, o que levou à abertura da caixa de pandora do capital financeiro, que havia muito tempo estava contida pela forte regulação dos Estados. O efeito de longo prazo foi a redução do poder e privilégio dos movimentos da classe trabalhadora no Norte Global frente à concorrência com uma força de trabalho global que poderia ser comprada a quase qualquer preço. Eu mantenho a afirmação de que as classes trabalhadoras dentro da estrutura global do capitalismo contemporâneo estão muito mais competitivas entre si agora do que estavam nos anos 1960.

A mudança tecnológica tem tornado o trabalho menos importante em várias esferas da atividade econômica (por exemplo, Google e Facebook). Ao mesmo tempo, as novas estruturas conectando o trabalho intelectual e organizacional do Norte global com o trabalho manual do Sul global escaparam do poder tradicional da classe trabalhadora no Norte global, deixando atrás uma paisagem desolada de desindustrialização e desemprego a ser explorada por quaisquer outros meios possíveis.

Um comentário final sobre o tipo de polêmica que Smith se propõe a fazer em lugar da crítica bem fundamentada. Ele caçoa da maneira que eu supostamente “imploro” pela volta para “um imperialismo do tipo New Deal mais benevolente” em O Novo Imperialismo. O contexto mostra que eu estava defendo isso como o único caminho possível dentro do modo de produção capitalista. Naquela época (2003), estava claro que não havia nenhum movimento global da classe trabalhadora que era minimamente capaz de apresentar uma alternativa ao capitalismo e que o capitalismo estava se encaminhando para um tenebroso choque econômico do tipo que ocorreu em 2007-8 (sim, eu claramente previ a possibilidade disso em O Novo Imperialismo, em 2003). Dado que a previsível crise subsequente foi resolvida pela despossessão posterior da riqueza e dos valores dos ativos de vastas populações, então eu penso que teria sido melhor para a esquerda na época apoiar uma alternativa keynesiana (a qual foi, incidentalmente, posteriormente implementada pela China).

Esta alternativa era, na minha avaliação política daquela época, a única maneira que uma margem de manobra poderia ser criada pela esquerda para compensar a guinada em direção à uma solução de violência militar e superexploração, na época claramente defendida pelo movimento neoconservador, que ecoava o que aconteceu nos preparativos da Segunda Guerra Mundial. Em retrospectiva, penso que eu estava certo nisso, mesmo que reconheça que muitos irão discordar de mim. Este debate, infelizmente, ainda se encontra entre nós. Mas a crítica bem fundamentada é uma coisa, e a polêmica desnecessária e zombeteira é outra.

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